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Ana Holanda · Jun 22, 2026

A escrita começa no corpo

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Produzir narrativas mais sensíveis, que afetem o leitor, depende do equilíbrio entre olhar e escuta

Eu sinto. A verdade é essa. Sinto no meu corpo quando percebo que alguma cena ou conversa, dessas bobas, que as pessoas em geral não dão valor e passam despercebidas, podem virar texto. Produzir narrativas mais sensíveis depende do equilíbrio entre olhar e escuta. E quando digo sensível não significa doce ou amorosa apenas. Mas aquela que vai além da superfície e dos textos comuns.

Tudo começa com o olhar, com o estar atento, vendo o que existe e acontece ao redor. Tenho me sentido incomodada ao ver pessoas que andam pela rua mandando e recebendo áudios. Já viu gente atravessando a rua com os carros passando e o farol fechado para os pedestres? Eu já, muito mais vezes do que gostaria. Ninguém mais olha também para as saídas de garagem. Se não estamos fazendo o básico para a própria segurança, como vamos andar pelas ruas, no metrô, ônibus ou carro, disponíveis para perceber o que acontece no entorno?

Nas minhas aulas, costumo recomendar para os alunos que deixem o celular e os fones de lado, de vez em quando. Isso não significa que é para sair por aí feito detetive, procurando miudezas propositalmente. Não é isso. Mas que estejam, às vezes, com a mente e o corpo disponíveis. Uma vez, um aluno veio me contar que só saía de casa usando fones de ouvido, para escutar música. Mas resolveu testar o que eu havia sugerido. Ele ficou impressionado com o tanto que estava perdendo. A estação de metrô onde habitualmente descia era ocupada por muitos imigrantes africanos. E a profusão de sons diversos, muitos dos quais ele não entendia, era algo bastante interessante. “Não fazia ideia da riqueza que estava ao meu redor”, comentou.

Em mim

Quando começamos a prestar mais atenção no entorno – isso vale até mesmo dentro da nossa casa – nos damos conta de que, todos os dias, dezenas de histórias passam pela nossa frente pedindo para serem contadas. Esta semana, por exemplo, minha filha deixou meia maçã no balcão da pia. Olhei para aquilo e uma voz interna anunciou: isso rende uma história. O aroma de sopa que entra pela janela, meu filho dando risadas com os amigos no quarto, minha filha fazendo as unhas na sala, o cachorro dormindo aos meus pés. Brinco que quando começamos a prestar mais atenção, a vida se torna um manancial de histórias inesgotáveis.

Isso não significa que tudo que percebo vira história. Mas alguns desses reparos mexem comigo. Escrevo principalmente sobre os que me emocionam, provocam lágrimas, me tocam. Há também os que me fazem rir, causam indignação, raiva ou fazem brotar afeto, saudade-de-não-sei-o-quê. Quando isso acontece, entendo como um cutucão, um recado: “ei, presta atenção, tem coisa boa aí para você escrever”. Sempre ouço. Porque não espero momentos especiais ou algum motivo para sentar e fazer um texto. É comum, por exemplo, que abra o bloco de notas do meu celular e componha a narrativa. Não gosto de apenas colocar a ideia no caderninho para depois fazer algo com aquilo. Já vou direto para o texto, porque gosto de aproveitar enquanto meu corpo ainda está reverberando a sensação que algo me causou.

Será que estamos prontos?

Talvez, a pergunta que você também precise fazer é “será que estou pronto?”. Porque quando isso começar a acontecer, quando você voltar a sentir, a olhar e a ouvir o entorno, será como abrir uma comporta. As histórias virão como a água que ficou represada e só estava esperando um lugar por onde escapar. Meus filhos e o namorado até já sabem quando algo me tocou a ponto de virar texto. Se começo a bater papo ao acaso com uma desconhecida na rua; se comento sobre uma cena que me fez chorar ou sobre algo interessante que vi. Invariavelmente ouço: “isso vai virar história”. Vai. Porque sou assim e gosto de ser.

Quando escrevo sobre a senhorinha que cruzei na rua e me pediu para ajudá-la a atravessar ou a conversa sobre vida e morte que tive com o vizinho no elevador, não significa que coisas extraordinárias acontecem comigo. Elas acontecem com todos nós, porque o extraordinário, na verdade, mora no ordinário. E seu corpo sabe primeiro. Apenas dê atenção a isso. Abaixo, vou compartilhar contigo um texto meu do bloco de notas do celular.

Pentax. K1000. Papai pediu para um amigo dele comprar a máquina fotográfica nos Estados Unidos. Era mais barato do que aqui. Me. Deu. De. Presente. Estava na faculdade de Jornalismo. A contragosto dele. 1992. Havia trancado o curso de Direito para fazer o que eu realmente gostava. Escrever. Na faculdade, tínhamos aula de fotografia, do jeito que era na época. Máquina toda manual. Ajuste de foco na mão. Revelação no quarto escuro. Passávamos por todo o processo de um jeito que a maior parte das pessoas, hoje, não faz a menor ideia de como seja. Foi essa máquina, que ostentava com orgulho, que me fez entender mais sobre a escrita. Isso porque a fotografia nos ensina a olhar — ou deveria. Você percebe o que de fato interessa para a fotografia e o que é excesso. Pensa no enquadramento, que é sobre estabelecer limites. Aprende a buscar o melhor ângulo das paisagens, das coisas e das pessoas. Sem forçar, sendo natural. Um sorriso, um olhar, a maneira de colocar uma mão sobre a outra. Pede técnica, mas demanda principalmente sensibilidade. Não é diferente da escrita, percebe?

Usei a K1000 por alguns bons anos. Até comprar uma Nikon digital, que fazia muita coisa sozinha. Mas foi a Pentax que realmente me ensinou o mais importante: olhar. Esta semana, fazendo minhas arrumações de armários, encontrei a minha antiga Pentax. Intacta. Mais ou menos. A lente ostenta um pequeno cultivo de fungos. Algo péssimo para o equipamento. Tocar novamente nesta Pentax me fez lembrar, numa semana difícil, que papai, apesar de contrariado e desgostoso, nunca deixou de acreditar em mi m. Talvez eu também devesse: nunca deixar de acreditar em mim.


Novidades e partilhas

Encontros que viram texto

O que compartilhei hoje na newsletter é parte do conteúdo ao qual você terá acesso no curso “Do Bloco de Notas ao Texto Final: escrevendo a vida comum”. O que mais amo neste aprendizado é que você se dá conta de que entender isso é a base para qualquer texto, independente do estilo. O curso é ao vivo e online. São quatro encontros, das 19h30 às 21h30. E todas as aulas são gravadas e disponibilizadas aos inscritos. Neste curso, trabalho com três pilares: cenas comuns, conversas cotidianas e personagens do dia a dia. O mais bacana é que sempre sugiro exercícios para serem feitos em casa. E, no início de cada encontro, os textos podem ser lidos e recebem meus comentários. São encontros dinâmicos e de bastante aprendizado prático. Pense com carinho e venha aprender comigo.

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Foto: Vitaly Gariev/Unsplash

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