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Emaranhado · Jul 8, 2025

O quarto (e o filme, e o livro) ao lado

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Ana Fiori · Emaranhado

Semana passada, os meus dispositivos me escutaram falando sobre Almodovar para um colega do curso de Filosofia com quem estou organizando um cineclube este semestre (cuja primeira sessão foi Clube da Luta, o que merecia uma publicação à parte para eu elaborar o quanto vim a detestar o filme com o passar dos anos), e o Netflix me sugeriu O Quarto ao Lado. Além de ser um filme do Almodóvar, de quem eu gosto bastante, Julianne Moore e Tilda Swinton tornaram a proposta tentadora. E eu realmente preciso de um detox de seriados médicos e programas de reforma de casa, minha opção atual de tv porquera.

O Quarto ao Lado tem Juliane Moore no papel de Ingrid, que acaba de publicar um livro sobre seu medo e sua incompreensão da morte. Ingrid vai visitar uma amiga com quem não havia se encontrado em muitos anos, Martha (Tilda Swinton). Martha, após mais um ciclo de quimioterapia, decide encarar de frente o caráter terminal de seu câncer e, ao invés de esperar o desenlace martirizante da doença, consegue um comprimido para eutanásia na deep web. Tendo feito alguns convites e recebido algumas negativas de pessoas mais próximas, Martha convence Ingrid a acompanhá-la a uma casa de campo para passar seus últimos dias, um mês no máximo, e estar “no quarto ao lado” quando Martha decidir partir, sem aviso prévio à amiga. O filme acompanha Martha lidando com as mudanças que a quimioterapia e a espera lhe trazem, a perda de certas sensibilidades e gostos, a dificuldade de concentração, os altos e baixos emocionais, as lembranças de seu trabalho como jornalista de guerra e a sua própria relação com a eminência da morte. E acompanha Ingrid lidando com Martha, e tendo como interlocutor seu ex-companheiro Damian, um acadêmico que dá palestras sobre catástrofe climática, um aceno para o fato de que o fim da vida biográfico está confluindo para a redução drástica das condições de vida na terra, para pessoas e para uma infinidade de espécies. Martha tem uma filha, Michelle, com quem tem uma relação distanciada, em grande parte pelos desentendimentos quanto à ausência do pai, Fred, um namoro de juventude que foi abalado pela ida de Fred para a Guerra do Vietnã. Fred nunca participou da vida da filha e alguns anos depois de seu nascimento morre em uma casa incendiada, na qual entrou acreditando ter ouvido vozes gritando por socorro. Uma morte trágica e sem sentido de um homem com o espírito machucado pela guerra.

Essas justaposições entre guerra, doença e crise climática como possibilidades de fim e de resistência são questionadas por Martha, que critica o léxico da guerra para falar de câncer e reivindica o uso da palavra “terminal”, para justificar sua escolha para encerrar a vida nos próprios termos. Ingrid a acompanha, e faz da presença a dádiva generosa que permite à Martha esse privilégio, ilegal e para poucos, o que gera alguns sobressaltos legais para Ingrid no final do filme. Como todos os filmes de Almodóvar, que passeou por diferentes gêneros em sua vida mas tem uma marca cinematográfica pessoal forte, o filme é visualmente muito bonito, desde a escolha das paletas de cores para os cenários aos enquadramentos (que lembram um pouco Bergman), que permitem a atuação corporal e vocal suave das atrizes, sem se desvanecer no tédio e na melancolia. Interessante o contraste com outros filmes de mulheres fortes de Almodóvar, aqui a força das personagens é quieta, não dominante. Ainda assim, o filme não é nada melancólico e tem certa continuidade com Dor e Glória (2019), estrelado por um Antônio Banderas todo dodói e suas lembranças fantasmagóricas da mãe Penélope Cruz. Falando sobre o fim da vida, Almodóvar faz essa inversão, ao invés de voltar-se para a mãe como em vários outros filmes, há um gesto impossível em direção à filha, sem necessariamente construir um futuro.

Li algumas resenhas sobre o filme e descobri que foi baseado em um livro de Sigrid Nunez, What are you going through. Procurei o ebook e o li no fim de semana. Como costuma acontecer em adaptações literárias para as telas, muitos dos diálogos dos filmes são internos à protagonista no livro, que é narrado em primeira pessoa e dividido em três partes. O livro dedica-se mais a como a protagonista acompanha diferente pessoas “naquilo que elas estão passando”. O ex-marido e seu fatalismo climático, a vizinha idosa e solitária e seu filho preocupado, e a amiga com câncer terminal que eventualmente lhe faz o convite para acompanhar a eutanásia. O livro termina de modo um tanto diferente do filme, o encontro da amiga pós eutanásia não é narrado, só aludido, e não há a cena na delegacia. O foco nos modos de ouvir e estar presente junto às pessoas em seus processos, sem exigir de fato amizade ou carinho (no caso da protagonista e a amiga com câncer, estes são fortes), mas compassividade e respeito, é retratado com muita sensibilidade.

Achei que tanto o filme quanto o livro apareceram em certa serendipidade nesse início de julho em minha vida. Lembrei-me muito de certas conversas que tive um tempo depois da passagem da minha avó, de como acompanhar seus últimos dias no hospital foi uma experiência transformadora em muitos sentidos, nem todos já compreendidos por mim. Achei importante esse modo das narrativas de abordar a eutanásia com gravidade, sem melodrama, sem dilemas morais maniqueístas e inócuos, sem alarde. Tendo uma prima minha passado legalmente por esse procedimento na Holanda, há 13 anos, tenho um profundo respeito por essa discussão.

Dias depois, já voltei para os programas porquera de reforma de casa. Velhos hábitos, difíceis de quebrar, sobretudo quando temos longos dias de burocracia acadêmica irritante para enfrentar.

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