É na casa dela que a criança acorda, come, brinca, se veste, se higieniza, se alimenta, descansa, cria, observa, experimenta, participa, se movimenta, relaciona-se com outras pessoas e, pouco a pouco, vai descobrindo o mundo e a si mesma t-o-d-o-s os dias!
Por isso, considero a casa como o primeiro território da vida da criança.
Contudo, eu percebo que nem sempre as casas consideram que a “criança-moradora” faz tudo isso em seu cotidiano. Aliás, infelizmente, na maioria das vezes, o espaço da casa está organizado para satisfazer os gostos, os interesses e facilitar a rotina do adulto, deixando as necessidades, os interesses e as preferências apenas1 para o quarto dela.
Em uma casa tradicional, em geral muito adultocêntrica:
Os objetos estão na altura mais conveniente para o adulto.
Os móveis foram escolhidos para as dimensões do adulto.
As decisões sobre o espaço foram tomadas pelo adulto.
E então, espera-se que a criança se adapte e aprenda a viver em uma casa que não foi preparada para ela.
Não significa transformar a casa em uma brinquedoteca.
Não significa comprar coisas novas para a casa/para a criança.
Não significa criar um cômodo “brincante” para a criança e deixá-la confinada a ele.
Significa se perguntar:
1. Essa criança é estimulada a participar da vida cotidiana da casa?
2. Essa criança encontra, nessa casa, oportunidades para fazer por si mesma coisas que interessam a ela?
3. Essa criança percebe, pelos sinais que o espaço da casa comunica, que pode ser ela mesma nessa casa?
E, a partir dessas respostas, fazer pequenas adaptações.
Muitas vezes, basta mudar uma coisa de lugar.
Baixar uma prateleira.
Retirar um obstáculo.
Deixar um objeto acessível.
Criar uma possibilidade.
Dar espaço.
Ou simplesmente começar a compartilhar, de fato o espaço da casa com a criança.
Para mostrar como pode ser simples, listei 100 atitudes abaixo.
Elas não são regras (até porque cada casa/família funciona de uma forma).
E por isso, claro, você não precisa fazer todas.
Elas são convites.
Recomendo que você escolha uma que faça sentido para a sua casa hoje.
Depois observe como isso mudou a dinâmica da criança com a casa.
Depois escolha outra. E siga buscando incluí-la da melhor forma.
Para transformar uma casa tradicional em uma casa preparada há quem precise de uma Conversa Preparada: um encontro pontual para nomear o incômodo e encontrar um caminho. Há quem precise de um Mapa da Casa: uma leitura ampla que reposiciona o olhar sobre todos os ambientes. Há quem esteja esperando um bebê e precise do Ninho Preparado: o cuidado de preparar a casa antes da chegada. E há quem esteja pronta para uma transformação mais profunda, com acompanhamento, através da Missão Casa Preparada.
01. Olhe para a casa na perspectiva da sua criança.
Agache-se. Sente-se no chão. Percorra os ambientes procurando ver o que sua criança vê. A casa que você conhece pode ser outra quando vista a partir de outra perspectivas.
02. Observe antes de reorganizar.
Dedique-se a prestar atenção intencionalmente ao que sua criança faz. O cotidiano dela será sua bússola nessa organização.
03. Refaça o percurso da criança pela casa.
Como é a rotina dela?! Por onde ela passa quando sai da cama até chegar à mesa do café da manhã? Quando chega da escola, onde ela vai primeiro? E depois do banho?! Onde ela consegue ir sozinha? Onde precisa de ajuda? Onde encontra obstáculos?
04. Liste as coisas que sua criança sempre precisa de ajuda para alcançar.
Provavelmente você vai perceber que muitos desses itens poderiam estar numa altura que ela alcance.
05. Observe as coisas que você mais proíbe.
Se todos os dias você diz “não mexa”, “não pegue” ou “não faça”, talvez exista uma pergunta espacial escondida ali: como posso transformar esse ambiente para que ela possa mexer, pegar e fazer com segurança?
06. Observe onde a criança espontaneamente escolhe estar.
Nem sempre o melhor lugar para brincar é aquele que o adulto escolheu como “cantinho da criança”. Qual lugar da casa parece convidá-la a permanecer nele por mais tempo? (Não vale dizer que é próximo de uma tela, hein!)
07. Pergunte-se qual mensagem que a casa está comunicando a ela.
Ela comunica que a criança pode participar? Que precisa pedir ajuda? Que pode explorar e levantar hipóteses? Que precisa ficar quieta?
08. Pergunte quem consegue usar cada espaço.
Se o banheiro da família é usado por todos os membros da família, a organização do banheiro deve considerar todos os membros da família. Uma casa pode ser acessível para um adulto e pouco acessível para uma criança. Isso vale para todos os ambientes que a criança frequenta na casa.
09. Procure os obstáculos antes de procurar soluções.
Talvez você não precise acrescentar nada. Talvez precise apenas retirar alguma coisa do caminho. Casa preparada também é sobre o que retirar dela, não apenas o que incluir nela.
10. Sempre que perceber uma dificuldade nova, anote e planeje como adaptar.
Não tente transformar a casa inteira de uma vez. Uma pequena mudança observada com atenção vale mais do que uma grande transformação feita às pressas.
11. Coloque uma fotografia da família ou produção da criança logo na entrada.
A experiência de vivenciar a casa começa pela entrada.
12. Deixe a chegada mais organizada e previsível.
Não precisa ser perfeito, mas saber a “morada” dos objetos dá previsibilidade (e o cérebro da criança pequena adora isso!). Quando cada coisa tem um lugar compreensível, a criança consegue antecipar as etapas que virão a seguir.
13. Faça da entrada um lugar onde a criança possa agir.
Entrar em casa é atravessar um portal do mundo externo para o interno. E vice-versa. Você pode transformar essa travessia em possibilidade de autonomia: a criança pode tirar o sapato, guardar a mochila, pendurar o casaco, cumprimentar quem está ali do outro lado…
14. Crie uma possibilidade de que ela se sentar para calçar os sapatos.
Um banco, uma cadeira ou outro apoio adequado pode transformar uma tarefa assistida em uma ação possível. E, além disso, ter o hábito de convidar a criança a fazer isso alguns minutos antes do horário previsto para a saída. As crianças precisam de calma para aprender uma nova habilidade. Ofereça o espaço e calcule esse tempo para ela.
15. Deixe os sapatos que ela mais usa acessíveis.
Não é necessário deixar todos os sapatos da criança na sapateira da entrada. Deixe apenas aqueles que fazem parte da rotina: um chinelo e um tênis da escola, por exemplo.
16. Disponibilize um lugar para a criança deixar seus pertences.
Abra espaço para que a chegada/saída da casa seja mais natural: uma caixinha, um cesto, uma bandeja para a criança deixar seu óculos de sol, seu boné... Acredite, esse tipo de atitude facilita muito o cotidiano de uma família que tem criança em casa.
17. Baixe o lugar da mochila.
Um pequeno ajuste de altura num gancho ou um lugar “exclusivo” para ela no chão ajuda a criança a saber onde sempre estão seus pertences, e onde ela pode guardá-las.
18. Observe a altura de tudo que faz parte da chegada (e da casa como um todo).
O gancho, a prateleira, o lugar dos sapatos, a cesta, o espelho. Pequenas diferenças de altura podem determinar se a criança consegue agir sozinha ou precisa pedir ajuda.
19. Observe o que acontece com os objetos assim que a criança entra em casa.
Onde ela consegue guardar? Onde você gostaria que guardasse? Existe diferença entre os dois lugares? Se sim, adapte com o que você já tem.
20. Retire um obstáculo do caminho.
Talvez seja uma caixa que chegou dos correios, um móvel grande demais para o espaço ou simplesmente excesso de coisas espalhadas por ali.
21. Observe se a televisão é o centro da sala.
Se a sala for pensada como um espaço de convivência da família (incluindo as atividades que vocês gostam de fazer juntos), a televisão fará parte dela sem ser a protagonista.
22. Pare de pensar na sala de estar como um espaço de visitas.
Quem usa a sala de estar no dia a dia é a família!
23. Observe se existe lugar para o corpo da criança nela.
As crianças gostam de fazer atividades de diversas formas: no chão, na cadeira, no sofá... Verifique se há espaço na sala para que ela se posicione da maneira como se sentir mais confortável possível, e segura.
24. Deixe alguns livros que ela goste ao alcance dela.
Não como decoração, mas como um lembrete da leitura como possibilidade.
25. Deixe um espaço onde uma brincadeira possa permanecer.
Nem tudo precisa ser desmontado assim que o jantar se aproxima, ou quando o dia termina: um quebra-cabeça, um LEGO, um “chá da tarde” com as bonecas...há brincadeiras que precisam de continuidade…
26. Reserve um pequeno lugar para as atividades favoritas do momento.
Papel, lápis, cola, tesoura: ou o que mais fizer sentido para aquela criança.
27. Deixe algumas produções da criança ocuparem os espaços comuns da casa.
A casa não precisa ser apenas o lugar onde a infância acontece., ela também pode (e deve) contar a história das infâncias que acontecem nela.
28. Crie possibilidades de participação na organização.
O que a criança pode fazer para ajudar a cuidar da sala? Guardar livros, recolher almofadas, organizar pequenos objetos. Cuidar da casa também é fazer parte dela.
29. Deixe espaço vazio.
O vazio não é desperdício de espaço quando existe uma criança. Pode ser lugar para movimento, encontro, construção e invenção. Deixe espaço para as possibilidades que virão e permita que a criança use sua criatividade para preenchê-los.
30. Pergunte à criança o que ela gostaria de mudar na sala.
Talvez ela peça uma coisa que você nunca imaginou. Escutar também é preparar.
31. Confira a cadeira da criança.
Ela consegue sentar e sair dela com segurança? Os pés encontram apoio? O corpo consegue permanecer estável durante a refeição?
32. Ofereça apoio para os pés quando necessário.
Os pés também precisam encontrar um lugar para descansar enquanto a criança se alimenta. Um corpo mais estável fica mais disponível para comer, conversar e participar da refeição. Um banquinho simples para apoio dos pés pode ajudar muito nesse sentido.
33. Coloque objetos de uso cotidiano ao alcance da criança.
Um guardanapo. Um copo. Um talher. Um prato. Talvez até uma pequena jarra. Escolha um e veja como a criança interage com ele.
34. Convide a criança a preparar a mesa.
Não porque ela “precisa aprender responsabilidades”, mas porque ela faz parte da rotina da família e preparar a mesa pode ser uma atividade muito divertida.
35. Permita que a criança ajude a retirar a mesa também.
Participar não termina quando o prato fica vazio.
36. Deixe a mesa ser também lugar de conversa.
Nem tudo que acontece à mesa precisa ter relação com comida. Aliás, à mesa podemos ter conversas importantes, difíceis e também muito divertidas. A alimentação é apenas uma parte do que compartilhamos nesse lugar.
37. Deixe que ela escolha entre possibilidades reais.
Que tal deixar duas frutas disponíveis para a criança escolher se prefere banana ou maçã na hora do lanche?
39. Observe o que o corpo da criança está dizendo à mesa.
Ela se mexe muito? Escorrega na cadeira? Apoia os joelhos? Levanta repetidamente? Antes de corrigir o comportamento, observe se o espaço está oferecendo as condições de que esse corpo precisa.
40. Não faça da mesa um lugar de batalhas.
A mesa é lugar de comer, conversar e conviver, e não de controlar o corpo da criança. Observe o que o ambiente pode fazer para favorecer uma experiência mais confortável para todos.
41. Escolha uma tarefa possível para a criança realizar na cozinha.
Lavar uma fruta. Guardar um utensílio na gaveta. Misturar ingredientes. Trocar a toalha da mesa. O que mais interessa a ela e que você considera seguro?
42. Coloque os objetos dessa tarefa ao alcance.
Não adianta oferecer participação e guardar tudo onde só o adulto consegue chegar. Ter os utensílios à mão facilita muito o processo.
43. Crie uma pequena “zona de autonomia” na cozinha.
Uma gaveta, prateleira ou cesta com aquilo que a criança pode usar no cotidiano. A comunicação visual pode ser uma ferramenta para isso!
44. Facilite o acesso à água.
Uma pequena jarra ou outra solução adequada pode permitir que a criança cuide de uma necessidade básica com autonomia, segurança e autoestima.
45. Deixe que ela participe do preparo de alguma refeição.
Cozinhar também é medir, misturar, esperar, experimentar, observar e cuidar. Se você não se sente segura em deixá-la próxima ao fogo, invista em atividades que não o incluam.
46. Não transforme a cozinha em um lugar excessivamente proibido.
Algumas coisas precisam, sim, de proteção. Mas segurança não precisa significar exclusão completa. Na cozinha há cores, aromas, sabores, texturas. Ela pode ser um laboratório sensorial para as crianças.
47. Proteja o que oferece risco real.
Preparar a casa também é saber dizer: isso ainda não.
Segurança sempre em primeiro lugar.
48. Convide a criança a guardar o que usou.
Participar da cozinha também é guardar um utensílio, devolver um ingrediente ao lugar ou levar algo até a pia. Lavar uma louça (pode começar com itens de plástico mesmo, não tem problema… o importante é poder participar!)
49. Maaaas, aceite que permitir que a criança participe pode fazer sujeira.
A casa que permite participação não é uma casa que permanece intacta, mas está sempre viva. Bagunças podem ser arrumadas. A autoestima fica marcada para sempre!
50. Mude o seu foco.
Pergunte-se: “o que minha criança gostaria de fazer aqui que eu posso permitir?”. E não “o que ela não pode fazer?”.
51. Observe o acesso da criança à pia.
Ela consegue alcançar a água? Consegue abrir a torneira? Consegue permanecer estável enquanto realiza essa tarefa?
52. Crie uma possibilidade segura de acesso à pia.
Um pequeno degrau, uma torre de aprendizagem ou outra solução possível para sua família pode mudar completamente a relação entre o corpo da criança e a pia.
53. Deixe a toalha ao alcance.
Se a criança consegue lavar as mãos sozinha, também deve conseguir secá-las sem precisar chamar um adulto para isso.
54. Deixe os objetos necessários ao autocuidado ao alcance.
Sabonete, escova de dentes, pasta de dente, pente ou outros objetos que ela já pode usar sozinha precisam estar em um lugar possível para ela.
55. Observe a altura do espelho.
A criança consegue se ver enquanto lava o rosto, escova os dentes ou penteia o cabelo? Ver o próprio corpo também faz parte de aprender a cuidar dele.
56. Separe aquilo que ela já pode usar sozinha.
Nem tudo precisa estar disponível. Mas aquilo que faz parte do autocuidado da criança pode estar organizado de modo que ela consiga encontrar e usar.
57. Observe o que ainda exige que você faça pela criança.
Talvez ela peça ajuda para alcançar alguma coisa, abrir uma gaveta ou guardar um objeto. Antes de fazer por ela, pergunte se uma pequena adaptação poderia tornar essa ação possível.
58. Diferencie aquilo que pode estar ao alcance daquilo que precisa de proteção.
Preparar não é deixar tudo acessível. É criar acesso ao que a criança pode usar e proteger aquilo que ainda oferece risco. Segurança deve estar sempre em primeiro lugar, especialmente em ambientes como o banheiro.
59. Dê espaço para que a criança cuide do próprio corpo.
Lavar o rosto, lavar as mãos, escovar os dentes, pentear o cabelo... O banheiro pode oferecer tempo, espaço e condições para que ela participe progressivamente desses cuidados. Sempre com a supervisão adequada à etapa de desenvolvimento da criança, claro.
60. Faça do cuidado de si uma experiência divertida.
Ter um lugar onde pode cuidar do próprio corpo fortalece a autonomia e a autoestima da criança. E, além disso, cuidar de si também pode ser muito divertido.
61. Deixe alguns livros ao alcance.
Escolher o que será lido para ela aumenta MUITO as chances dela desenvolver amor pelos livros.
62. Deixe algumas roupas acessíveis.
Não é preciso disponibilizar tudo. Algumas escolhas possíveis (coerentes com clima/ocasião) já permitem que a criança participe de pequenas decisões sobre o que vestir.
63. Deixe alguns brinquedos visíveis.
Aquilo que está sempre escondido pode deixar de ser percebido como uma possibilidade de brincar. Nem tudo precisa estar exposto, mas aquilo que está disponível precisa poder ser facilmente encontrado pela criança.
64. Crie um lugar para guardar os brinquedos que a criança compreenda.
Na mesma lógica, é preciso que a criança entenda o sentido da organização de seus pertences: cestos, caixas, prateleiras ou gavetas podem funcionar. O importante é que a organização faça sentido para ela, e que as categorias dos objetos sejam claras.
65. Sobre a cama.
A criança consegue entrar e sair dela com segurança? A cama corresponde às possibilidades do corpo dela neste momento?
66. Deixe espaço para o corpo e para o movimento.
O quarto não precisa ser preenchido por móveis. Uma área livre pode ser lugar para brincar, dançar, construir, imaginar ou simplesmente se espalhar pelo chão. Pense nisso na hora de planejar o quarto dela.
67. Reserve um lugar para aquilo que está em processo.
Uma construção, um desenho, uma coleção, uma cabana. O cotidiano da criança não acontece apenas em atividades que começam e terminam, mas na continuidade delas.
68. Dê espaço para que a criança faça escolhas sobre o próprio quarto.
Onde quer guardar determinada coisa? Qual desenho quer deixar exposto? O que gostaria de mudar? Participar das decisões também é uma forma de pertencer.
69. Deixe o quarto contar um pouco da história daquela criança.
Fotografias, desenhos, objetos encontrados, livros, coleções e pequenas lembranças podem mostrar que aquele espaço não é apenas um quarto: é um lugar que reconhece quem vive nele.
70. Pergunte se o quarto ainda corresponde à criança que vive nele.
Crianças mudam. Seus interesses, habilidades, necessidades e formas de brincar também. A casa precisa ter liberdade para fazer essas pequenas alterações “em tempo real”...
71. Não compre, ressignifique.
Talvez a criança não precise de mais brinquedos, mas sim de mais espaço, tempo, liberdade ou acesso àquilo que já tem.
72. Deixe materiais ao alcance.
Eu já comentei sobre isso na sala de estar, mas “espalhe” pela casa: papéis, lápis, blocos, livros, tecidos e outros materiais adequados podem estar disponíveis para que a criança escolha o que fazer com eles. Além de estimular a criatividade da criança, são ótimos recursos “anti-telas”.
73. Ofereça materiais que possam ser muitas coisas.
Esses são os materiais chamados de “não-estruturados”, porque eles não tem um uso único, mas sim muitas possibilidades de uso: uma caixa pode virar um barco, por exemplo. Um tecido pode virar uma cabana. Um pedaço de papel pode virar quase qualquer coisa. Materiais abertos ampliam as possibilidades de imaginar e criar. Eles são sempre bem-vindos numa casa [verdadeiramente] preparada.
74. Não organize tudo como se sua casa fosse aparecer numa capa de revista.
A brincadeira envolve tocar, escolher, combinar, desmontar, transformar e experimentar. Um espaço excessivamente intocável pode ser bonito para o adulto e pouco convidativo para a criança. É o que eu chamo de “casa-estéril”.
75. Deixe o corpo participar da brincadeira.
Brincar também é correr, pular, rolar, construir, carregar, equilibrar-se e mudar de posição. O espaço precisa permitir que o corpo encontre diferentes maneiras de estar. Se isso não for possível na casa inteira, identifique onde esse tipo de movimento pode acontecer.
76. Preserve alguns espaços sem uma função determinada.
Nem todo espaço livre precisa receber um móvel, um cesto ou uma caixa. Um espaço sem função definida pode se transformar conforme a brincadeira pede.
77. Disponibilize uma superfície para criar.
Uma mesa, uma bancada, uma prancheta ou até uma pequena área protegida no chão pode oferecer suporte para desenhar, construir, recortar, modelar e experimentar sem medo da sujeira ou da bagunça.
78. Crie momentos para que a família brinque junto.
Uma brincadeira também pode ser uma forma de convidar alguém para perto, negociar ideias, combinar regras, esperar a vez e construir alguma coisa em conjunto: desenhos, jogos, colagens, mímicas… qual a atividade mais divertida para sua família?!
79. Observe a brincadeira antes de interrompê-la.
Respeite o silêncio da concentração e a repetição da experimentação. Antes de reorganizar, tente compreender o que está acontecendo na mente da criança. Converse com ela sobre isso…
80. Pergunte-se constantemente: “o que essa casa está permitindo que minha criança imagine, crie e faça?”
A resposta pode revelar se a casa oferece espaço para a infância acontecer e se desenvolver naturalmente.
81. Não ignore o corredor.
Ele pode ser passagem, mas também pode oferecer espaço para movimento, encontro, observação e pequenas descobertas cotidianas.
82. Dê atenção ao espaço entre a mesa lateral e o sofá.
O que a criança conseguiria fazer ali? O que a sua criança gostaria de fazer ali?E
83. Reserve pelo menos uma parede para a vida da casa.
Desenhos, fotografias, produções, descobertas e pequenas exposições podem ocupar os espaços comuns. A casa também pode ser vitrine para aquilo que a criança cria e vive em seu dia a dia.
84. Observe as portas.
Elas facilitam ou dificultam a passagem da criança? Há portas que ela consegue abrir, fechar e atravessar com segurança? Elas protegem de escadas ou ambientes mais perigosos mais perigosas da casa?
85. Pense nos interruptores a partir da altura da criança.
Existe alguma forma segura de permitir que ela participe do controle da iluminação? Acender e apagar uma luz também pode ser uma pequena experiência de autonomia. Ainda que sejam alguns estratégicos como no quarto ou no banheiro, por exemplo.
86. Olhe para as janelas a partir da altura da criança.
O que ela consegue ver? O mundo que existe do lado de fora também faz parte da experiência de morar.
87. Incentive que olhe para fora.
Uma janela pode aproximar a criança das árvores, do céu, da chuva, das pessoas, dos animais e do movimento da rua. Observar a mudança da luz, da chuva, das nuvens e do clima ao longo do dia também é uma forma de perceber que a vida é cíclica. Se preciso, deixe um banquinho próximo à ela, mas nunca se esqueça de garantir que a criança estará segura enquanto está próximo às janelas: redes de proteção são fundamentais!!!
88. Repare nos lugares onde a criança espontaneamente se posiciona de maneira confortável.
Qual a cadeira favorita? O assento que mais gosta no sofá?!
89. Observe os caminhos que a casa oferece.
Há móveis, objetos ou outros obstáculos que interrompem desnecessariamente a circulação? Muitas vezes, preparar a casa é simplesmente deixar o caminho mais livre.
90. Peça que a criança mostre o que é mais interessante para ela.
Dê uma máquina fotográfica (ou o celular) para que a criança registre seus espaços favoritos na casa (e os que ela não gosta também). Talvez você descubra uma casa que nem sabia que existia.
91. Dê à criança um lugar que seja dela, sem limitar sua presença a ele.
Ela pode ter um quarto, um ambiente ou um pequena espaço para fazer o que ela quiser…mas a criança pertence à casa inteira e precisa experimentar esse pertencimento no cotidiano.
92. Pergunte onde a criança quer deixar sua presença aparecer.
Já falamos sobre desenhos na geladeira, fotografia na sala, uma coleção sobre uma prateleira. Mas onde a criança gostaria de ver sua arte?
93. Permita que a criança participe de algumas decisões sobre a casa.
Escolher onde guardar alguma coisa, qual livro deixar disponível ou onde colocar uma arte feita por ela também é uma forma de dizer: “eu confio nas suas escolhas”.
94. Aceite que uma casa com criança terá marcas da infância.
Uma casa não precisa apagar tudo o que acontece dentro dela para continuar sendo bonita, organizada e agradável para quem vive nela.
95. Observe o que a casa oferece apenas aos adultos.
Talvez algumas coisas precisem continuar disponíveis apenas para os adultos. Mas tenho certeza de que você encontrará outras tantas que possam ser compartilhadas e disponibilizadas para as crianças. Foque nelas.
96. Reavalie os espaços que foram definidos como “proibidos para crianças”.
Alguns limites são necessários. Outros podem existir apenas porque sempre foi assim. Antes de manter uma proibição, reflita se existe uma maneira segura de incluir a criança naquele ambiente em específico (normalmente existe!)
97. Procure transformar limites em possibilidades.
Em vez de pensar apenas no que a criança não pode fazer, pergunte: “como posso organizar para que ela possa fazer o que ela deseja?”.
98. Lembre-se de que participar não significa fazer sozinho.
Uma casa preparada também cria oportunidades para fazer junto, pedir ajuda, ensinar, aprender, cooperar e compartilhar a vida cotidiana. É mais sobre interdependência2 do que independência.
99. Refaça constantemente essas perguntas:
- minha criança consegue agir por si mesma aqui?
A casa é uma ferramenta de autonomia?!
- minha criança consegue pensar por si mesma?
A casa é um ateliê de explorações?!
- minha criança consegue sentir por si mesma?
A casa é um ninho de acolhimento?!
Essas respostas sempre precisam ser revistas porque as crianças mudam muito rapidamente. E uma casa preparada deve adaptar-se constantemente a quem ela é hoje!
100. Comece por UMA atitude.
Uma gaveta na cozinha.
Uma prateleira na sala.
Um gancho na entrada da casa.
Um livro visível para os olhos e ao alcance das mãos.
Um espaço vazio para o movimento; para a criação.
Um lugar seguro e confortável à mesa.
Uma parede que conta a história da criança.
Uma escolha no cotidiano.
Uma possibilidade de vivenciar a casa de uma maneira diferente.
Uma pequena mudança pode ser o começo de uma casa que, aos poucos, acolhe com mais empatia, respeito e afeto a criança que também vive nela!
Estou animada para saber o que você achou deste texto.
Se puder, me manda uma mensagem, vou amar saber qual atitude você vai fazer primeiro por aí…
E SE QUISER MINHA ORIENTAÇÃO PARA APLICAR ESSAS CEM ATITUDES NO COTIDIANO DA SUA FAMÍLIA, ME CHAMA, TÁ?!: Com minha mentoria Missão Casa Preparada, oriento individualmente famílias que querem preparar ambientes que facilitam a rotina, diminuem conflitos, potencializam o desenvolvimento de suas crianças.
Este texto foi escrito com amor, dedicação e afeto.
Grata por sua escuta e pelo seu tempo.
🩶
Um beijo!
Obviamente, o quarto [também] importa! O quarto faz parte da casa da criança. Mas a casa da criança vai muito além do quarto. A criança que tem um quarto preparado onde possa exercer sua autonomia, fazer escolhas e aprender mais sobre si mesma já tem muita sorte, nunca terei argumentos contra isso, contudo é preciso enxergar a casa como um laboratório da criança. Se a criança só puder experimentar o espaço do seu quarto, ele se tornará um espaço que a excluí do restante da casa, não a inclui nela! A criança deve ter a liberdade de explorar a casa toda!!! A casa da criança deve ter a segurança necessária para que ela seja bem-vinda no banheiro. A casa da criança deve permitir que a criança se sinta pertencente na sala de ESTAR da família. A casa da criança deve convidar a criança a participar das atividades da cozinha, sempre com a observação atenta de um adulto cuidador responsável. A casa da criança deve provocar para que a criança aprenda sobre si mesma oferecendo a ela a oportunidade de fazer escolhas por si só! A casa. Não o quarto, ou não APENAS o quarto.
Interdependência é quando a criança tem liberdade para agir, mas com a certeza de que não está sozinha no mundo. É a base de um cotidiano doméstico saudável: todos os membros da casa — adultos e crianças — se apoiam mutuamente, sem dominação, com escuta, com respeito.

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