Oiê, espero que esteja tudo bem por aí :)
Você chegou a mais de uma edição da série PASSOS
PASSOS é uma série paga de por uma casa preparada, criada para famílias que desejam olhar para a própria casa na perspectiva da(s) criança(s) que vive(m) nela.
São 21 passos.
Cada um enviado para você como uma carta de incentivo.
Algumas mais reflexivas, outras mais práticas, mas todas com o mesmo propósito: te ajudar a transformar (sem grandes reformas ou investimentos) a casa que você tem na casa que sua criança merece.
O acesso completo aos PASSOS está disponível apenas para
assinantes pagos de por uma casa preparada.
Se você chegou agora e quer entender por que o espaço da casa importa tanto para o desenvolvimento integral da criança, recomendo começar pela leitura deste texto.
Se já está decidida a caminhar conosco, atualize sua assinatura:
PASSO 09: nesta carta, chegamos ao primeiro ambiente específico da série: o quarto onde sua criança dorme. Mas antes de falar sobre ele, preciso reforçar uma ideia muito importante para uma casa preparada: o quarto é importante, mas não é suficiente. Hoje, eu te conto por que a criança que só tem o quarto preparado ainda está sendo excluída de grande parte da casa — e o que um quarto verdadeiramente preparado precisa comunicar a ela. Ao final, um exercício prático com um checklist para avaliar como é o quarto que sua criança tem hoje.
Chegamos ao primeiro PASSO dedicado a um ambiente específico da casa. E, eu já te adianto que os próximos quatro PASSOS seguirão essa mesma lógica. Escolhi começar pelo “quarto de dormir” porque ele é, quase sempre, o primeiro lugar que vem à mente quando o assunto é preparar a casa para a criança. É o ambiente mais associado ao “universo Montessori” nas redes sociais, o mais fotografado, o mais replicado e o mais projetado por escritórios tradicionais de arquitetura infantil.
Então, desde de já quero te contar uma coisa que talvez você não saiba: não existe “estilo montessoriano” de decoração de quarto. Maria Montessori nunca falou sobre “camas em formato de casa”.
Ou seja, um quarto preparado vai muito além de ter o que o mercado chama de “cama montessori”:
Um quarto preparado significa um ambiente que possibilita que a criança aja com autonomia, faça escolas, aprenda mais sobre si mesma, mas de nada adianta uma “cama casinha” (ou um colchão baixo, que é o que eu costumo recomendar) se os adultos responsáveis pela criança não se sentem seguros para que ela suba e desça dela sozinha. De nada adianta uma cama baixa se a criança não puder experimentar a liberdade dentro do próprio quarto.
Elas são muito bonitas, inspiradoras.
O que me incomoda nelas é que, ao pensar que precisa ter uma cama assim, pode-se criar a impressão de que um quarto preparado é um produto que se compra: que um conjunto de objetos certos, na combinação certa, na paleta certa, no estilo certo irão assegurar que a criança cresça sentindo-se confiante o suficiente para agir, pensar e sentir por si mesma.
Mas um quarto preparado não é um produto que se compra!
Uma cama-casinha, uma “arara” com as roupas, uma mesinha baixa não fazem um quarto preparado por si só. O que diferencia um quarto preparado de um quarto tradicional é a pergunta que o antecede:
Como a minha criança pode viver melhor nesse ambiente?
O ambiente está adaptado ao que ela já é capaz de fazer por si mesma, ou ainda está organizado para a criança que ela era há seis meses?
Eu já disse isso em diversas ocasiões diferentes aqui em “por uma casa preparada”, mas sempre sinto a necessidade de repetir:
A casa deve ter a segurança necessária para que a criança seja bem-vinda no banheiro. A casa deve permitir que a criança se sinta pertencente na sala de estar da família. A casa deve convidar a criança a participar das atividades da cozinha. A casa deve provocar escolhas, exploração e descoberta em cada cômodo, não apenas naquele que foi intencionalmente decorado para ela.
A casa é importante.
Não o quarto.
Ou melhor: não apenas o quarto.
Dito isso, com esse meu posicionamento firmemente defendido, vamos falar sobre o quarto da criança.
Porque o quarto [também] importa.
O quarto [também] faz parte da casa da criança.
O quarto [também] merece atenção como qualquer outro ambiente da casa.
Eu acho que o ponto mais importante de um quarto preparado, ainda que ele abrigue outras função na vida da criança (por vezes é o espaço de estudo, de guardar a maior parte do brinquedos, etc), é que ele é o lugar destinado a resguardar a qualidade do sono.
O sono não é apenas descanso.
O sono é saúde, é desenvolvimento, é regulação emocional.
Para todos, mas particularmente para crianças.
Segundo o Center on the Developing Child da Universidade de Harvard, altas temperaturas no ambiente afetam o foco e o sono da criança, e dormir mal pode, ter consequências sérias como impactar o desenvolvimento da linguagem e o comportamento1. Para a Sociedade Brasileira de Pediatria2 é fundamental evitar o uso de telas pelo menos uma hora antes de dormir, além de: criar um ritual de sono tranquilo e breve; respeitar horários regulares; promover um ambiente silencioso, fresco e com pouca luz…²
É claro, que, caso você precise ajustar mais de um item dessas recomendações, você não fará tudo de uma vez, de um dia para outro, mas definitivamente esses ajustem devem começar com a criação de um ambiente que convida ao repouso com segurança, rotina e o máximo de afeto possível.
Antes de continuar, um convite.
Entre no quarto da sua criança agora mesmo.
Pergunte-se: o que esse quarto está dizendo para ela? o que ele está dizendo sobre ela?
a criança consegue agir nele sozinha?
a criança pode se expressa nele?
será que a criança se reconhece nele?
E uma última pergunta: esse quarto abriga todas as possibilidades de atividade livre para a criança, ou ele a convida também a explorar o resto da casa?
Porque um quarto [verdadeiramente] preparado não isola a criança nele, mas a empodera a ser livre para habitar a casa inteira.
Eu não mencionei isso antes, mas acho importante advertir sobre um dos piores venenos do século XXI (de acordo comigo mesma, claro): a comparação. Por ser p quarto da sua criança o ambiente mais visto nas redes sociais (especialmente se você acompanha muitos escritórios de arquitetura infantil ou perfis de decoração de casas), é possível que você caia nessa armadilha. Por isso, desde já quero que você fique bem tranquila em relação a isso:
o quarto não precisa estar adequado a nenhum “padrão”;
o quarto não precisa seguir nenhuma temática específica;
o quarto não precisa (e na minha opinião nem deve) ser instagramável.
o quarto não precisa se parecer com nenhuma referência que você salvou na sua pastinha.
Para que ele seja um quarto preparado para acolher as necessidades e facilitar o desenvolvimento integral da sua criança ele só precisa que ele faça sentido para a criança e que ele seja coerente com o cotidiano dela, com os interesses dela e para o que faz sentido para a sua família.
Me conta: depois dessa leitura, o que você identificou que o quarto da sua criança já diz sobre quem ela é. E, principalmente,o que você gostaria que ele dissesse? Me responda esta carta, eu vou amar saber mais sobre vocês.
Se ao longo dessa leitura você percebeu que o quarto da sua criança (e a casa toda) ainda tem muito a dizer sobre ela, o MISSÃO CASA PREPARADA pode te ajudar. Ele é um processo individual em que olhamos juntas para a sua casa, para a sua criança e para a relação entre ambas.
quero conhecer o MISSÃO CASA PREPARADA
Recomendo que você faça esse exercício caminhando pelo quarto, observando atentamente aos detalhes, sempre se posicionando na altura do ponto de vista da sua criança. Se preciso, abaixe-se, engatinhe, rasteje-se: procure ver o que ela vê, alcançar o que ela alcança e encontrar o que ela encontra.
A criança consegue subir e descer da própria cama com segurança e autonomia?
Há um espaço onde ela possa escolher suas próprias roupas com facilidade com opções acessíveis, coerentes (com o clima e ocasiões do cotidiano dela) e em quantidade adequada para não sobrecarregar a escolha dela?
Existe um assento ou apoio para facilitar que ela se vestir sozinha? Principalmente se ela se interessar por esse tipo de atividade, claro!
Há uma seleção intencional de brinquedos e livros ao alcance dos olhos e das mãos dela? Se ela tiver muitas opções, sugiro sempre que você separe alguns (os preferidos do momento) e faça o “rodízio” deles sempre que achar necessário (normalmente quando a criança passa a se interessar mais por telas do que por seus próprios brinquedos é a hora de fazer essa mudança)
O quarto convida ao descanso? Confirme se a iluminação está adequada, se a temperatura está confortável e se há poucos estímulos visuais neste ambiente.
Existe um ritual breve e prazeroso antes de dormir? Esses ritos são importantes tanto para que o cérebro da criança se prepare com mais tranquilidade. Ou seja, a criança tendo a ser menos relutante a dormir se todas às noites ela se alimenta, toma um banho, e ouve uma (ou algumas hehehe) histórias antes de, de fato, precisar dormir, do que quando a cada noite há uma ordem diferente dos acontecimentos.
Sempre que possível, é melhor evitar contato direto com telas pelo menos uma hora antes de dormir. Vocês estão conseguindo seguir essa recomendação? Se não, como o ambiente pode dar alterativas às telas neste momento em específico?
Você percebe, pelos sinais que a criança dá enquanto está em seu quarto, que ela se reconhece nele? Há demonstrações de afeto e afinidade com o que tem dentro deste ambiente?
Há, no quarto, registros que contam a história da criança? fotografias, desenhos, objetos que ela gostava muito quando era menor?
Se a criança sente que precisa de algum objeto de transição3 (um paninho, um boneco, uma coberta preferida), certifique-se de sempre tê-lo disponível no quarto na hora de dormir. Acredite: a criança que tem um objeto de transição realmente precisa dele: não é frescura, tá?!
Para reforçar: um quarto preparado é uma parte importante de uma casa preparada, mas não deve ser o único lugar onde a criança pode participar, ser protagonista e se sentir pertencente em sua própria casa.
Este PASSO foi escrito com amor, dedicação e afeto.
Grata por sua escuta e pelo seu tempo.
🩶
Um beijo e até o próximo PASSO.
Center on the Developing Child, Harvard University. The Science of Early Childhood Development. Disponível em: developingchild.harvard.edu
Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação: Sono na infância e adolescência. 2019.
Um “objeto transicional” é um conceito criada pelo pediatra e psicanalista Winnicott (1951) para se referir a um objeto que pode oferecer conforto emocional em momentos em que a criança possa sentir emocionalmente insegurança. Para Winnicott, esse objeto participa do processo pelo qual a criança, gradualmente, diferencia sua experiência interna do mundo externo, situando-se em uma área intermediária entre a realidade subjetiva e a realidade objetiva.

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