Em 22 de junho de 1986, Maradona fundiu divino e terreno em um campo de futebol, de um jeito como nunca se viu antes e provavelmente nunca mais se verá igual. O Estádio Azteca, um palco mítico e místico, viu uma fenda se abrir entre os seis e os dez minutos do segundo tempo. Primeiro, a “Mão de Deus”. Depois, o “Gol do Século”. Em parcos quatro minutos, o Barrilete Cósmico (“de qué planeta viniste?”) redefiniu órbitas e foi aos extremos. As canhotas de Diego, naquele dia, uniram evolucionismo e criacionismo: o Big Bang de sua sequência de dribles e o ilegal toque de mão, com um quê de blasfêmia, justificado como intervenção divina. O talento celestial e a artimanha mundana no mesmo jogo, lado a lado, como se não fossem conflitantes. O camisa 10, por si, idiossincrático o suficiente para fazer com que os dois atos não soassem paradoxais.
O Argentina 2x1 Inglaterra da Copa do Mundo de 1986 permanece, tantos anos depois, como uma memória viva do futebol. E mais viva do que nunca 40 anos depois, no jogo mais importante entre as duas seleções desde então, a semifinal de 2026. Maradona fez o cosmos girar ao seu redor e permanece como centro gravitacional antes que a nova partida comece. Mas o que refletia Diego sobre aquela tarde no Azteca? Parte de suas lembranças ficaram registradas no livro ‘Meu Mundial, minha verdade: Assim ganhamos a Copa’, escrito em parceria com o jornalista Daniel Arcucci, publicado 30 anos depois.
“Tínhamos uma grande equipe. Uma boa equipe que foi se armando com as partidas, pela inteligência dos jogadores. E, sim, ficou muito melhor por minha presença. Por que vou mentir? Eu reconheço isso. Mas também estou convencido de que não ganhei o Mundial sozinho”, escreveu Diego, na publicação. “Sobre mim, poderão dizer qualquer coisa. Mas quando ponho algo na cabeça, consigo. E, com a bola nos pés, sempre sentia que ia conseguir o que me propunha. Valdano me dizia que, quando eu tocava a bola, parecia que fazia amor. E algo disso existia…”.
A Inglaterra foi o quinto desafio da Argentina naquele Mundial, após a Albiceleste avançar invicta na fase de grupos e eliminar o Uruguai nas oitavas de final. A Inglaterra que, quatro anos antes, não havia sido adversária na Copa do Mundo, e sim na Guerra das Malvinas. O assunto era recorrente antes do jogo pelas quartas de final, ainda que os personagens das equipes evitassem o embate político. Maradona não queria o clima bélico, mas pretendia a revanche na bola. Na véspera, Diego se recusava a responder qualquer pergunta que envolvesse o tema.
“Se fosse pelos argentinos, tínhamos que sair com uma metralhadora cada um e matar Shilton, Stevens, Butcher, Fenwick, Sansom, Steven, Hodge, Reid, Hoddle, Beardsley, Lineker. Mas nós nos distanciamos dessa discussão. Eles eram apenas nossos rivais. O que eu sim queria era dar chapéus, canetas, chamá-los para dançar, fazer um gol com a mão e outro mais, o segundo, que foi o maior gol da história”, reconstruiu Maradona, em seu livro sobre a Copa.
“A verdade é que os ingleses tinham matado muitos garotos, mas se os ingleses são culpados, também são os argentinos que mandaram esses garotos enfrentarem sem recursos a terceira potência mundial. […] Não joguei a partida pensando que íamos ganhar a guerra, mas que íamos honrar a memória dos mortos, dar um alívio aos familiares dos rapazes e tirar a Inglaterra do plano mundial… do plano mundial futebolístico. Deixá-los fora da Copa, nesta instância, era como fazê-los se renderem”, complementou.
Antes de entrar em campo, Bilardo fez referência a esse tributo na preleção. “Nós, quando falamos sobre a partida contra a Inglaterra, falamos sobre o jogo em si, mas Bilardo foi muito inteligente: nós estávamos representando os mortos. Mandaram os argentinos à morte. Nós acreditamos que os ingleses apertaram um só botão e mataram a todos. Então nós tínhamos que entrar em campo e jogar futebol pensando que, se tirássemos a Inglaterra da Copa, teríamos vencido uma guerra futebolística. Isso era o que nos motivava”, conta também Diego, no filme ‘Maradona por Kusturica’. Foi naquela partida que o treinador faria trocas essenciais na equipe titular e acertaria a formação ideal até o título. Passaria a atuar com três zagueiros. A escalação contava com: Pumpido, Cuciuffo, Brown, Ruggeri; Giusti, Burruchaga, Batista, Enrique, Olarticoechea; Maradona, Valdano.
A Inglaterra vinha em recuperação no Mundial. Perdeu a estreia contra Portugal e só empatou diante de Marrocos, antes de assegurar a classificação ao vencer a Polônia e também passar por cima do Paraguai nas oitavas. Gary Lineker já despontava como artilheiro do torneio, assim como outros bons valores estavam à disposição – como Peter Shilton, Glenn Hoddle e Peter Beardsley. Já o técnico Bobby Robson evitava falar em uma marcação individual sobre Maradona, embora temesse uma dose de otimismo exacerbado entre os ingleses durante aquele embate. A cautela era fundamental.
Seria um primeiro tempo bastante travado no Azteca, sem muitas chances de gol. A Inglaterra chegou a assustar após um escorregão de Nery Pumpido, mas Beardsley não aproveitou a saída desesperada do goleiro e bateu ao lado de fora da rede. Já a Argentina, como sempre, dependia da faísca de Maradona. Mesmo que suas ações não terminassem no alvo, Diego logo mostrou do que seria capaz. Cada arrancada era seguida por uma perseguição desatinada dos adversários. Cada avanço deixava pelo menos dois ou três pelo caminho. Ainda assim, andava difícil destrancar a área inglesa e bater de frente com Shilton.
O melhor que Maradona conseguia para criar ocasiões de gol era sofrer faltas no limite da grande área – sem tanta violência, até porque um cartão amarelo aos nove minutos inibiu os britânicos. Foi este o meio de evitar que o Gol do Século se concretizasse na primeira etapa. Em uma dessas cobranças, Diego carimbou a barreira. Na outra, mandou ao lado da trave. Além do mais, com a defesa dos Three Lions cerrada, muitos dos passes de Maradona não rendiam tabelas – mesmo entregando uma miríade de efeitos nos toques aos companheiros.
O segundo tempo é que, de fato, guardaria a história. E bastaram seis minutos para que ela começasse a ser escrita. A “Mão de Deus” apareceu ali. Cabe lembrar, contudo, que o tento mais ilegal das Copas nasceu a partir de uma genialidade de Maradona. O camisa 10 fintou três adversários, antes de entregar para Jorge Valdano. Quando o atacante tentou devolver, Steve Hodge cortou para o meio da área. Foi aí que Diego entrou rasgando, se antecipando a Shilton, para o toquezinho de punho fechado que só os árbitros não viram.
“‘Essa é minha’, pensei. ‘Não sei se vou ganhar, mas eu tento. Se for para marcarem a falta, marcarão’. Saltei como uma rã e isso foi o que não esperava Shilton. Ele pensava, creio, que eu ia me chocar com ele. Mas saltei como uma rã, veja as fotos; isso é o que fala como estava meu corpo. Ganhei de Shilton porque fisicamente estava feito uma fera. Ele saltou, sim, mas eu saltei antes, porque vinha olhando a bola e ele fechou os olhos. […] Se você olha as fotos, a diferença que há de Shilton a mim em relação à bola é grande. Shilton nem aparece. E, se você olha os pés, já estou no ar, sigo subindo, e ele continua no chão”, recontaria Maradona, em seu livro.
“Olhei ao árbitro, que não tomava nenhuma decisão. Olhei ao bandeira, o mesmo. E fui correndo comemorar. Decidi o que eles não se animavam a decidir. Bin Nasser (o árbitro tunisiano), depois me contou, olhou ao bandeira. E o bandeira, que era um búlgaro, ficou esperando o árbitro. […] Depois eles brigaram por isso, creio, porque um disse que o outro era culpado. Eu segui correndo, sem olhar para trás. Chegou Batista antes de todos, mas muito lento, como se pensasse para não anularem. Eu queria que viessem mais, mas só vieram Valdano e Burruchaga. Bilardo tinha proibido de irem os meio-campistas festejar o gol, porque não queria que se cansassem. Mas desta vez precisava, precisava… Creio que eles não queriam olhar para trás, com medo de que anulassem. Batista me perguntou se foi com a mão e pedi para que fechasse a boca, que seguisse festejando”, continuaria.
A Inglaterra ainda estava grogue pelo tento irregular quando, apenas quatro minutos depois, nasceu o “Gol do Século”. O mais puro momento do Maradona genial que eclodiu em 1986. Surgia “Barrilete Cósmico”, como alcunhou magistralmente para sempre o narrador Victor Hugo Morales, que inglês nenhum conseguiria parar. Um lance estupendo no maior dos palcos, que mais parecia uma peripécia nos campinhos de terra batida aprontada por um garoto. O Pibe de Oro.
A imaginação de Maradona foi capaz de antever o zigue-zague estonteante na defesa da Inglaterra. Só seus pés dominariam a arte de concretizá-lo. Os dois primeiros adversários para trás, num giro, antes da linha central. A arrancada pela direita, entortando o terceiro. O quarto, no vácuo, até que Shilton ficasse caído diante dos pés do craque. E quando Terry Butcher tentou freá-lo num carrinho duro, nada mais impediria o caminho da bola às redes. De Diego, com carinho, à memória.
“Esse gol para mim tem uma música. E a música é a narração de Víctor Hugo Morales. Esse gol me fizeram ver e escutar em inglês, em japonês, em alemão. Até, um dia, me fizeram um vídeo no qual a bola ia para fora. Mas a narração de Víctor Hugo é única. Volto a me emocionar, como da primeira vez”, recontou Maradona, em seu livro.
“Essa narração e as palavras do meu pai, depois, foram um prêmio. Um prêmio como a Copa. Meu velho nunca foi de fazer elogios. Mas, depois da partida, ele me deu um abraço e me disse que fiz um golaço. E me contou que se desesperava enquanto via a jogada, porque pensava que eu não ia chutar nunca, que eu ia cair ou que iam me derrubar. Então, terminei de tomar consciência do que havia feito, seguro de que tinha sido algo muito grande”, complementou. Para ele, gols mais bonitos podiam vir. Mais importantes à Argentina, impossível – quatro anos depois da guerra e naquele contexto.
Houve um jogo além disso. E um jogo muito difícil à Argentina. Os ingleses passaram a chegar mais firme em Maradona, de tornozelo inchado por causa do carrinho de Butcher e que precisou de atendimento médico por uma pancada na nuca. O camisa 10 passaria a jogar mais rápido, soltando a bola aos companheiros com toques de inteligência. Porém, a Albiceleste também precisou lidar com a pressão em sua área. Liderada por Oscar Ruggeri, a zaga continha os cruzamentos. Pumpido realizou grande defesa em cobrança de falta de Chris Waddle. E o sufoco aumentou com a boa entrada de John Barnes, a 15 minutos do fim.
Seria de Barnes a jogada do gol que descontou a diferença à Inglaterra, aos 35, num avanço pela esquerda desferindo o cruzamento para Lineker cabecear. A Argentina quase fez o terceiro na sequência. De novo, conduzida pela habilidade de Maradona. O camisa 10 deixou dois adversários falando sozinhos, com um lindo giro sobre a bola, e passou a Carlos Daniel Tapia quando outros dois fechavam seu caminho. A tabela permitiu ao substituto avançar à entrada da área e bater rasteiro, mas carimbou o poste.
Os minutos finais veriam um Diego abnegado, prendendo a bola nas pontas e gastando o tempo. Mas também dependeu da fé dos argentinos, aos 42, quando Barnes cruzou e Lineker não conseguiu pegar em cheio na bola, mesmo a meio metro do gol. A nuca de Julio Olarticoechea salvou. Era o alívio da vitória albiceleste, com sabor de revanche além do futebol.
“O gênio deslumbrante. O jogador único, que só por estar em campo delata as limitações dos demais. Várias jogadas de classe suprema. Um gol de vivo e outro para a história do futebol. Capaz de deixar definitivamente todo o estádio em apoio de sua equipe por admiração e agradecimento. E o mais importante, talvez, terminar com a velha dúvida: ser grande nas horas mais difíceis. Mandou quando se precisava e desequilibrou quando se precisava, como vem fazendo e vem demonstrando desde que começou este Mundial”, eram as palavras da revista El Gráfico, depois do jogo.
“Mais uma vez, Diego Maradona foi o dono da festa. Além de ter sido uma grande atuação, confirmando também sua condição de grande líder dentro do campo, ele marcou um gol de placa. Era o gol do gênio, do melhor jogador da Copa no momento. Maradona mostrou grande experiência também no lance do primeiro gol, que marcou com a mão, ao sair comemorando o lance como se tivesse sido legal. O árbitro correu para o centro do campo e confirmou, apesar dos protestos dos ingleses. No final, a seleção inglesa acabou reconhecendo que, para ser um craque completo como Maradona, é preciso ter muita malícia e esperteza”, analisou o Jornal dos Sports.
“Genialidade e esperteza. Com essas armas, Diego Maradona não só levou a Argentina às semifinais, deixando desesperados os ingleses todas as vezes em que dominava a bola, como consolidou a condição de maior jogador desta Copa. Do esperto foi o gol de mão – num lance tão rápido que iludiu o juiz e o bandeirinha. Do gênio, o gol que decidiu a partida – uma jogada rápida, com dribles desconcertantes em três adversários e um toque perfeito para o fundo das redes”, apontava o Jornal do Brasil.
Bilardo salientava na época a entrega de Maradona: “A Argentina tem a felicidade de ter estas duas coisas ao mesmo tempo: a genialidade de Diego e um sentido de conjunto extraordinário. Maradona, hoje, tem qualidades de homem inigualáveis. Vocês precisam privar da sua intimidade para saber o que isto significa para o grupo de jogadores da Argentina. Ele coloca o seu talento mágico a serviço da coletividade, de uma causa comum. Nunca em seu próprio benefício. Aí reside o segredo”.
Sir Bobby Robson, do outro lado, também se rendia: “De vez em quando o mundo produz jogadores como Maradona. Foi um dos gols mais bonitos que já vi em toda a minha carreira. O Maradona enganou até a mim, que estava no banco. É um gol que vai entrar para a história do Mundial. Pena que tenha sido contra a Inglaterra. A Argentina não depende apenas do Maradona. O time está muito bem arrumado. Por isso, não quis fazer uma marcação especial sobre Maradona. Tinha certeza de que não adiantaria de nada”.
Maradona mantinha uma dose de humildade, mas com sua ironia: “A vitória pertence a todos, não só a mim, e a dedico também aos que criticam a nossa seleção. Em 1980, em Wembley, também contra a Inglaterra, fiz uma jogada parecida, mas perdi o gol por vacilar no último drible. Desde então, meu irmão menor me cobra esta jogada. Ele dizia que eu devia ter dado mais um drible. Quando peguei a bola neste jogo e vi que poderia fazer a mesma jogada, lembrei-me do meu irmão. Ao driblar o número 14 deles, pensei comigo mesmo: essa não tem jeito. E não teve mesmo. Já o outro gol foi feito um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”.
Por fim, em seu livro, Maradona buscou deixar para trás as mágoas em relação à Guerra das Malvinas e preferiu não alimentar uma inimizade com os ingleses: “Aquilo era uma partida de futebol e assim interpretamos todos. Porque os ingleses foram cavalheiros conosco. Inclusive depois que ganhamos, foram nos saudar, trocamos camisetas nos vestiários. Te digo: querem me fazer inimigo da Inglaterra e não sou”.
No entanto, cabe dizer que em outra autobiografia, ‘Eu sou Diego’, publicada 16 anos antes, Maradona foi bem mais ácido ao comentar aquele Argentina x Inglaterra: “Embora tenhamos dito antes do jogo que o futebol não tinha nada a ver com a Guerra das Malvinas, nós sabíamos que eles tinham matado um monte de garotos argentinos como se fossem passarinhos. E essa foi a revanche”, escreveu. “Às vezes acho que prefiro meu gol de mão ao outro gol. Foi como roubar a carteira de um inglês”. Os extremos, em cinco minutos, em tantos anos depois.
Espanha x França: a rivalidade iniciada pela disputa por um craque
·
Jul 13
A rivalidade entre Espanha e França no futebol começa antes mesmo do primeiro duelo entre as seleções oficiais. A princípio, o confronto se iniciou para ver quem garantia os serviços de um craque. Considerado o “Di Stéfano dos anos 1920” e chamado de “nossa primeira estrela” pelo próprio site do Real Madrid, René Petit misturava as duas origens: filho d…

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.