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Alex Castro · Jul 27, 2026

O que pode na não-monogamia

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Alex Castro · Alex Castro

A pergunta que mais me fazem sobre não-monogamia é: “Alex, em um relacionamento não-monogâmico, posso fazer isso ou aquilo?” Esse texto é para responder essa pergunta, em todas as suas variações.

(Minha principal recomendação de leitura sobre não-monogamia é a Prisão Monogamia, onde tento resumir toda uma vida de experiências e leituras. Ele serve como introdução ao tema e como manual prático. Além disso, o único livro que eu recomendo é esse, que é lindo, perfeito, empático, ético, engraçado, e foi muito bem escrito por duas mulheres incríveis.)

A monogamia quase sempre funciona como um contrato de adesão, digamos, de um serviço de streaming.

Nesses casos, o contrato já está pronto, fechado, dado. A pessoa, se quiser, entra em algo que já existe, sem poder discutir nenhuma daquelas milhares de cláusulas, que quase sempre nem leu. É de adesão pois sua única escolha é concordar e aderir, ou discordar e ficar de fora.

O contrato monogâmico, claro!, não é de adesão absoluta, existe muita coisa a debater, a discutir, a acertar — falar putaria na internet é traição?, pode sair com as amigas, etc — mas, sim, em larga medida o contrato já existe. É um contrato cujo modelo é prévio ao relacionamento. Tanto que muita coisa nem precisa ser discutida, por já ser presumida, como exclusividade sexual, por óbvio.

A monogamia é um contrato desigual. O modelo ao qual se está aderindo é maior, mais antigo, mais poderoso que os participantes. Dá pra discutir uma cláusula ou outra, mas não é um modelo que permite ampla negociação do pacto que está na sua essência.

Em um contrato monogâmico, a própria tentativa de negociar a monogamia — “estou pensando em abrir a relação” — já é vista, necessariamente, com razão, como uma crise.

Já as relações não-monogâmicas foram pensadas e inventadas, são vividas e praticadas, explicitamente para fugir desse modelo de adesão.

Até eu entrar no meu relacionamento com a pessoa-que-eu-amo... esse relacionamento não existia. Ele não era nada. Não existe nada prévio.

Portanto, não é um ENTRAR, é um CONSTRUIR.

O relacionamento só passa a existir no momento em que eu e a outra pessoa escolhemos INVENTÁ-LO juntas.... e podemos inventá-lo do jeito que quisermos, como quisermos, negociando cada cláusula, inventando qualquer cláusula possível e imaginária que ambos aceitemos.

É por isso que não faz sentido quando as pessoas me perguntam:

“Em relacionamento não-monogâmico, pode fazer X ou Y?”

A minha única resposta é:

“Não sei, ué. Não existe relacionamento não-monogâmico padrão, genérico, prêt-à-porter. Só existe o relacionamento não-monogâmico concreto onde VOCÊ está, que você está agora criando com uma ou mais pessoas. Então, eu é que te pergunto: no SEU relacionamento não-monogâmico pode fazer X? Se você e as outras pessoas quiserem, sim. Se alguém vetar, não. O SEU relacionamento não-monogâmico só existe a partir do momento em que você o inventa.”

A vantagem de definir relacionamentos assim é ressaltar nossa autonomia, nossa liberdade, nossa potência.

Se relacionamentos são contratos de adesão pré-existentes, nossa margem de manobra é muito pequena: ou aceitar ou sermos solteiras, rejeitadas, sozinhas, longo suspiro, ai ai. Mas se meus relacionamentos só passam a existir quando eu os invento, então, eu tenho o poder de inventá-los como eu quiser.

Se o assunto te interessa, te recomendo ler o meu texto Prisão Monogamia, onde desenvolvo essas ideias. Se quer ler um livro, recomendo esse verdadeiro manual ético e prático de vida, escrito por duas mulheres, que mudou minha vida.

Outras recomendações de leitura: dois livros do homem que melhor escreveu sobre amor livre no Brasil; um artigo sobre a ficção da “família nuclear cristã”; um livro que trata das origens biológicas e sociológicas da monogamia, feito sob medida para quem gosta de pensar tudo cientificamente e historicamente.

A Prisão Monogamia faz parte de uma série de textos que estou escrevendo há anos, que em breve vai virar livro: As prisões. No Curso das Prisões, uma das aulas é só sobre monogamia.

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