Chega de séries perfeitas de seis episódios a cada quatro anos. Queremos de volta nossas séries imperfeitas de vinte e dois episódios por ano.
Tive uma professora que dizia assim:
“O trabalho final só pode ser entregue até a data-limite. Não aceito trabalhos atrasados. Sim, sei que se vocês tivessem mais um dia, mais uma semana, mais um mês, o resultado ficaria ainda melhor. Mas qualquer um faz um trabalho melhor tendo mais prazo. A tarefa de vocês é produzir o melhor trabalho possível até a data da entrega. Ponto.”
(Todo mês, eu dou uma aula avulsa de literatura e história para minhas pessoas mecenas. A aula desse mês será sobre as independências da América Latina e acontece na quarta, 22 de julho, às 19h, como complemento à leitura de Cem anos de solidão no curso Grande Conversa Romance. As aulas e os curso são só para mecenas, mas é super fácil se tornar mecenas: basta fazer uma contribuição ao meu Apoia-se. As mecenas têm acesso a todos os meus cursos, passados, presentes e futuros, enquanto durar o mecenato.)
Ponto:
A excelente série da Apple Pluribus, que teve sua primeira temporada lançada no ano passado, em 2025, avisou que, agora, em meados de 2026, só tem metade dos episódios da segunda temporada escritos. Ou seja, considerando tudo o que ainda precisa ser feito depois disso, a série com certeza não volta esse ano e nem mesmo ano que vem. Quando perguntado se ainda era possível a segunda temporada sair em 2028, o executivo da Apple não quis se comprometer. Os criadores, por seu lado, dizem que estão trabalhando duro para manter o nível de qualidade ao qual o público se acostumou na primeira temporada.
E contraponto:
A Netflix percebeu que os telespectadores abandonam suas séries na segunda temporada. Acabou de estrear a nova temporada de Avatar: the Last Airbender, e a queda foi de 60%. A série Beef caiu 70%. Etc.
Ou seja, o bom é o inimigo do ótimo.
O texto é esse. O resto é nota de rodapé.
Talvez estejamos descobrindo que as pessoas criativas simplesmente não dão conta de trabalhar com verdadeira liberdade.
Não é à toa que o soneto ainda é tão popular, apesar de ser tão amarrado: dentro das suas limitações técnicas, o artista pode fazer o que quiser. A prisão de suas formas ironicamente libera seu conteúdo.
Quando assistimos os criadores de séries das décadas de 80 e 90 falando (saudades, comentários de DVD!), eles sempre contam histórias incríveis das mágicas que faziam para driblar limitações técnicas, de tempo, de dinheiro. Alguns dos melhores e mais memoráveis episódios de nossas vidas nasceram assim, porque o orçamento já tinha acabado, porque só havia um cenário, porque os outros atores não estavam disponíveis, etc. (São os famosos “filler episodes”, ou episódios encheção de linguiça, ou “episódios de garrafa“.)
Nas histórias que esses criadores contam, os executivos de TV ou dos estúdios são sempre os malvados vilões, impondo restrições irrazoáveis e, depois, exigindo o impossível. Uma gente ruim!! Que, apesar de trabalhar com isso, não entende o próprio trabalho!!! Odiamos eles!!!!1 Etc
Então, uma nova geração de executivos, que cresceu ouvindo essas histórias, demonstrou ter aprendido a lição.
De repente, tanto velhos players, como a HBO, como novos, Netflix, Apple, etc, começaram a propor aos criadores variações do seguinte contrato:
“Olha só, adoro seu trabalho, confio no seu talento. Toma aqui essa mala de dinheiro. Quero ver o que você vai fazer com liberdade total.”
E assim começou a Era de Ouro da TV.
Que, como toda Era de Ouro, está terminando agora em choro e ranger de dentes.
Talvez, sem alguém que assine cheques, cobre prazos e puxe rédeas, a maioria das artistas simplesmente não consiga produzir.
Alguns não produzem nada, como o diretor que veio filmar até em São Paulo, fechou a Paulista, parou o trânsito, atazanou todo mundo, acabou embolsando o resto do dinheiro, não entregou nada e foi preso.
Mas essas são as exceções. O mais normal é que demorem anos e anos para produzir meia dúzia de episódios.
O caso mais famoso, longe de ser o único, é da série da Netflix Stranger things: personagens que eram crianças na primeira temporada foram interpretados, na última, por atores que já eram mães e que já tinham, inclusive, feito plásticas rejuvenescedoras. Os criadores avisaram que não estavam nem aí.
Antigamente, as temporadas de TV dos Estados Unidos terminavam em maio e já sabíamos quais tinham sido canceladas e quais voltariam em setembro. Do mesmo ano! Três meses depois!
Hoje, é razoavelmente normal uma pessoa assistir a primeira temporada no ensino fundamental e a segunda, quando já é caloura da universidade. Ela se vicia no piloto da série quando é solteira e, na segunda temporada, já tem filho pequeno.
Não só esquecemos tudo, como não conseguimos acompanhar, não conseguimos nos envolver.
Um filme pode até ser um tórrido e clandestino one night stand, mas uma série é um relacionamento de longo prazo.
(Pior, as séries são com frequência canceladas sem nenhuma justificativa, sem chances de se despedir, apesar de terem um público cativo e serem muito elogiadas, como The Acolyte e Irmãos Sun. Vale a pena assistir as duas, aliás, mesmo com o cancelamento precoce.)
Nós, artistas, adoramos dizer que o público não sabe o que quer, ou, então, que se fizéssemos o que o público quer, ele mesmo não gostaria, etc.
Por exemplo, disse o escritor Alan Moore, no documentário “The mindscape of Alan Moore“:
“O trabalho do artista não é dar ao público o que o público quer. Se o público soubesse o que quer, eles não seriam o público, e sim artistas. O trabalho do artista é dar ao público o que ele precisa.”
Em uma entrevista recente, George Lucas disse:
“I don’t like focus groups. The audience doesn’t know what they want to see. If they don’t like a character, that’s interesting, and as a filmmaker I want to find out why. But when the studios hear that, they take the wrong message. They let the audience actually make the movie. Of course, now they go crazy with that. Now, it’s all about what the fans think. That isn’t how you make the movie. You make a movie by finding someone that knows how to make movies, that has a story to tell and is passionate about it.”
Ambos estão certos. Claro que sim.
Mas é importante reconhecermos o movimento oposto: os artistas, muitas vezes, também não sabem o que o público quer.
Nós não queremos a melhor série possível e imaginária, leve o tempo que levar.
Nós queremos a melhor série possível dentro dos limites do nosso tempo e da nossa memória, que tenha alguma regularidade e previsibilidade entre os episódios e entre as temporadas.
Como diria a minha professora, qualquer um pode fazer uma série perfeita de oito episódios a cada quatro anos.
Queremos de volta nossas séries imperfeitas de vinte e dois episódios por ano.
Todo mês, dou aulas e promovo conversas livres sobre literatura e história para minhas pessoas mecenas. Aqui vão as próximas. Seja mecenas, é a melhor forma de me apoiar. Além disso, minhas mecenas têm acesso a todas as aulas dos meus cursos passados.
Quarta, 22: aula, As independências na América Latina
Quarta, 29: aula, Cem anos de solidão, Grande Conversa Romance
Domingo, 2: Conversa livre, Tetralogia napolitana, Grande Conversa Romance
(calendário completo para 2026)
O curso Grande conversa romance: 1 ano para ler 6 romances perfeitos é um mergulho profundo em alguns dos maiores e mais perfeitos romances da literatura mundial.
Dois meses para cada livro (quatro para Guerra e paz): um encontro livre para conversar sobre a leitura no primeiro domingo de cada mês e uma aula expositiva ao final dos dois meses, ambos no Zoom, e muito bate-papo literário todo dia no Whatsapp.
Ninguém precisa de ajuda para ler os livros fáceis e curtos. A ideia do curso é ajudar vocês a lerem aqueles livrões que, talvez, estavam adiando ler a vida inteira e, quem sabe, ajudá-los também a encontrar novos livrões legais.
Leremos só grandes livros, um romance em cada uma das principais línguas literárias ocidentais. Abaixo, a lista completa, em ordem cronológica. Os links já levam à edição recomendada.
1 Moby Dick, inglês, 1851 (agosto & setembro 2025)
2 Os miseráveis, francês, 1862 (outubro & novembro 2025)
3 Guerra e paz, russo, 1867 (dezembro 2025, janeiro, fevereiro & março 2026)
4 Grande sertão: veredas, português, 1956 (abril & maio 2026)
5 Cem anos de solidão, espanhol, 1967 (junho & julho 2026)
6 Tetralogia napolitana, italiano, 2015 (agosto, setembro & outubro 2026)
Saiba mais sobre o curso aqui.
Qua, 22jul26, 19h: aula, As independências na América Latina
Qua, 29jul26, 19h: aula 5, Cem anos de solidão
Dom, 2ago26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Dom, 6set26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 30set26: aula, História da Itália
Dom, 4out26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 28out26, 19h: aula, Tetralogia napolitana

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