A indústria cultural passou as últimas duas décadas tentando fingir que enquanto persona pop, existe uma diferença fundamental entre ser distribuído pelo mundo e ser aberto a ele. Cá entre nós: um artista que toca em quatro continentes, com fãs em Sidney, São Paulo, Seul e em Lagos, não é necessariamente um indivíduo que conhece ou respeita as culturas dessas pessoas. Ele é um produto com logística global.
E produto com logística global é muito diferente de pessoa com perspectiva global. A confusão entre os dois é o coração do problema.
A persona pop moderna é um dos projetos de branding mais sofisticados que existem. Ela foi construída com o principal objetivo de parecer próxima (os bastidores no Instagram, a letra que parece escrita pra você, o jeito de falar que está sempre em alta). Mas existe uma diferença estrutural já que empatia de verdade exige repertório, ter sido exposto a mundos diferentes do seu, ser confrontado por outras realidades.
Sim, fiquei engasgada com a postura da Sabrina e toda a sua xenofobia.
O que a indústria fabrica é a estética que simula algum apreço, um conjunto de sinais que transparece abertura, diversidade, inclusão, sem necessariamente construir nada disso por dentro. Um clipe com rostos de várias etnias. Sempre uma boa declaração de apoio bem cronometrada. O tour que passa por cinquenta países sem que o artista precise colocar o pé na rua (é por isso que eu te amo, Dua Lipa).
O fã absorve esses sinais e alimenta uma relação afetiva unilateral com uma imagem. Não com uma pessoa, mas com aquela construção cuidadosamente gerenciada da sua percepção. Quando o mundo real interrompe o fluxo do show na forma de um som que não cabe no mapa, o que apareceu não foi maldade mas sim o tamanho real do horizonte de alguém que foi vendido como sem fronteiras.
Tá pensando que a sabrina sequer sabe, se importa ou liga pro seu amor?
O fato é que a ausência de repertório fica ali, escondida, camuflada. Isso é mais difícil de nomear e por isso mais difícil de cobrar.
Destrinchando todo o branding por trás de grandes divas pop, o que você encontra é uma operação milionária de gestão de percepção. A imagem de "cidadã do mundo" é construída camada por camada, pensado para compor um personagem que parece poroso, aberto, consciente. Mas persona é diferente de pessoa, e o branding, por mais sofisticado que seja, não substitui o trabalho real de alguém que não precisa nem ser culto, apenas consciente.
O zaghrouta é uma expressão de alegria praticada por milhões de pessoas em toda a região árabe e no norte da África há séculos. Apareceu no Super Bowl de 2020, quando Shakira (de descendência libanesa) o fez ao vivo para mais de cem milhões de pessoas. Dentro do mapa mental construído pela indústria americana, tudo que não cabe no referencial anglo-europeu existe numa zona de ruído. É um tipo de ausência que foi cultivada, naturalizada e depois vendida como sofisticação. Ela pensa que determina o que é moda, o que é universal, e tudo isso a partir de trabalhos pré existentes que viram o hype ou não. Poderia falar sobre a influência geopolítica no nosso meio de vida e na crescente dos EUA pós segunda guerra, mas fica pra outro texto.
Uma das armadilhas mais comuns nesse tipo de discussão é a pergunta errada: ela quis ofender? Como se intenção fosse um critério válido nesse caso.
Xenofobia estrutural não opera por intenção. Ela opera por hierarquia naturalizada, aquela ideia tão iludida de que certas culturas são o padrão e outras são o desvio, algo que precisa ser explicado. E o contexto aqui não poderia ser mais revelador. O Coachella passou por uma transformação demográfica significativa nos últimos anos, com um segmento internacional maior do que tinha cinco anos atrás no Audiense e o que faz do festival em 2026, um dos espaços mais culturalmente diversos do entretenimento ao vivo no mundo. A apresentação de Beyoncé em 2018 reuniu mais de 100 mil pessoas no local e atingiu 458 mil espectadores simultâneos no livestream, recorde histórico do festival. Não é um evento pequeno, de nicho, de público homogêneo. É um palco global, com toda a sua complexidade.
E é exatamente por isso que o episódio pesa. Quando alguém precisa interromper um show para dizer isso faz parte da minha cultura e ainda assim não é ouvida, o problema não está na intenção de quem não ouviu. Está no sistema inteiro que tornou esse não-ouvir possível, natural, e até defensável para parte da plateia. A fã não estava atrapalhando. Estava celebrando, com a expressão mais genuína que sua cultura oferece para aquele momento.
O problema não é apenas não conhecer. É não reconhecer e seguir em frente mesmo depois de ser informada. Isso tem nome.
Esse tipo de discussão sempre me faz pensar em separar a obra do artista. Amar incondicionalmente a obra é relevar atitudes ruins?
Não acho que exista uma resposta limpa pra isso. Errar é humano, tudo bem. Mas existe uma diferença entre falhar e falhar na frente de milhares de pessoas, em tempo real, num momento em que o mundo está mais sensível do que nunca a exatamente esse tipo de apagamento cultural. Também é importante relembrar que ter influência não é um detalhe pequenininho, na verdade é uma responsabilidade que vem junto com o camarim, o empresário e os milhões. E quando essa influência encontra um caminho não tão legal, o desconforto que a gente sente como fã é legítimo. É o momento em que você percebe que admirava uma construção, e o que fazer com isso agora… vai saber.
O que você acha?

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