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Além do Concreto · Sep 14, 2025

Design instagramável x experiência vivida

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Andrade · Além do Concreto

Uma placa neon, algumas plantinhas artificiais coladas na parede e duas cadeiras estrategicamente posicionadas: pronto, está criado o “cantinho instagramável”. Cafés, restaurantes, escritórios e até eventos repetem esse clichê à exaustão. E faz sentido já que funciona como estratégia de marketing, com o próprio cliente divulgando o espaço espontaneamente sem nem perceber sua atuação como propagador da marca. Um chamariz fundamental nos dias de hoje, onde muitas vezes a profundidade da experiência é substituída por uma aparência que interessa muito mais as redes sociais do que a própria vivência humana.

Nada contra lugares esteticamente agradáveis, a beleza tem seu valor e pode sim, ser celebrada. E a arquitetura junto a suas diversas funções (muito além de decoração, eu juro) embasa todo esse viés. O que me incomoda é a falta proposital do tentar, a exposição crua de uma estratégia egoísta; enfeites bastam para se vender como diferencial, o desempenho do design como um fundo de tela para selfies e só.

Um dos mil clichês do Pinterest

Truques visuais baratos tentam (sem o menor pudor) se passar por arquitetura. É simples criar ambientes assim, quase sempre às custas de deixar de fora premissas básicas do que realmente importam. Só que não precisa ser uma escolha entre aparência e essência para projetar espaços bonitos, funcionais e confortáveis ao mesmo tempo. Num mundo em que compartilhar digitalmente ganhou tanta relevância, não há motivo para sacrificar a experiência real. Um espaço pode render boas fotos, mas sobretudo boas vivências.

Esses dias estava pesquisando layouts comerciais e me deparei com uma enxurrada de matérias sobre o escritório da Boca Rosa, onde a promessa é cada ambiente projetado ser instagramável e absolutamente personalizado. Diante de todo o conceito justificado, o que mais me chamou a atenção foi o hall, inspirado na aurora boreal. A ironia da referência à um fenômeno natural grandioso e luminoso é absurda já que não há ali (e nem na maioria dos ambientes do projeto) qualquer sinal de luz natural. Em vez disso, espaços saturados por leds, neons, efeitos artificiais, cores vibrantes e excesso de informação que criam uma poluição visual cansativa aos olhos e que compromete qualquer experiência real e funcional de trabalho. Tudo é cenográfico, pensado para cliques perfeitos de todos os ângulos, e nada mais. O corpo que habita o ambiente, a vivência, o conforto, ficam em segundo, terceiro ou quarto plano. E não vou nem entrar no ponto da sustentabilidade.

Forbes
Pinterest

Sou contra ver a arquitetura somente como um projeto de status. … Acho que o povo deve fazer arquitetura. - Lina Bo Bardi

Esse excesso cenográfico não é um caso isolado. Vivemos uma era em que a aparência parece ter se tornado critério de qualidade, em qualquer área. Mas sigo acreditando que a performance digital não deve ser mais importante que a experiência concreta. Me assusta exemplos como este onde o design se mede pelo engajamento acima de tudo, sem responsabilidade alguma nem mesmo com o bem estar dos próprios colaboradores da marca. A fotografia reposicionada em antemão a vivência vai contra o sentido de projetar, e demonstra incompetência no equilíbrio entre o belo e o funcional. Talvez a verdadeira arquitetura seja aquela que consegue ser memorável, e não apenas mais uma estratégia para viralizar.

Sou uma grande admiradora dos projetos do SuperLimão Studio. São Paulo não é uma cidade conhecida por sobrar espaços, mas mesmo em ambientes limitados, esse escritório consegue esboçar propostas criativas e coloridas sem comprometer a funcionalidade. O projeto do escritório da SouSmile me encantou de cara por ter, claramente, uma consciência na escolha dos materiais, aproveitamento da luz natural e um dinamismo criativo que explora cores e texturas em todos os ambientes. A estética não se tornou um fim em si mesma, a prioridade cenográfica não excluiu o conforto dos usuários. Isso eleva a experiência de quem habita o espaço e reforça o comprometimento de quem projetou.

Archdaily
Archdaily

Não me excluo de quem se envolve por espaços bonitos. Afinal, quem não se sente abraçado por uma arquitetura de estética cuidadosa? Mas esse acolhimento pode ser positivo ou negativo: enriquecer a experiência ou apenas banalizar o espaço, transformando-o em um cenário egoísta. O verdadeiro desafio é criar arquitetura que emocione e acolha, não apenas que brilhe nas redes sociais.

Read the original on alemdoconcreto.substack.com

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