O Joinville Esporte Clube completou este ano as bodas de ouro de sua primeira conquista do Campeonato Catarinense. Em 1976, o clube surgiu a partir da fusão do América Futebol Clube com o Caxias Futebol Clube, reunindo as cores vermelha, preta e branca formando o tricolor da maior cidade do estado. A fusão representou a tentativa de deslocar o protagonismo do futebol estadual para a maior cidade do estado. Em 1975, a cidade ultrapassou a capital em população, tornando-se a maior do estado. Como a maior cidade não estava entre os protagonistas estaduais?
Até a fusão, a cidade de Joinville havia testemunhado o América com cinco títulos, o Caxias com três e o Operário com uma conquista, ele foi o time da Usina Metalúrgica de Joinville, uma equipe praticamente amadora que levantou o caneco em 1956. Conquistas modestas diante do sucesso da dupla da capital. A crise financeira dos anos de 1970 promoveu várias fusões de clubes pelo estado. Tais processos foram mobilizadas por interesses da ditadura para dar maior identidade as cidades. O Joinville, nos doze primeiros anos de vida, conquistou 10 títulos catarinenses. Posteriormente vivenciou hiatos, e desde 2001, não alcança o posto máximo no estadual. Entre tantas crises, no cinquentenário do primeiro título conheceu o rebaixamento para a segunda divisão do estado.
A população da cidade é a maior, mas o protagonismo da maior do estado no futebol não foi atingido. O tricolor de aço chegou à elite do brasileiro, disputado a primeira divisão, em 2015, depois de ter passado por ela entre 1977 e 1986. Desde sua última passagem o clube vive uma crise sem precedentes. Será que a fusão ainda faz sentido?
Talvez o filósofo Walter Benjamim (1882-1940) possa nos ajudar a entender o tempo e o JEC. Para o autor, o século XIX e início do XX criaram um modo de sentir o mundo, marcado pela velocidade, pela mercadoria, pela multidão urbana. Isso constitui, na prática, uma leitura do zeitgeist moderno, avançando em discussões e proposição de Hegel (1770-1831) sobre o tempo. O zeitgeist é um termo alemão que significa “o espírito do tempo”. É a ideia de que cada época possui uma “atmosfera” que molda como as pessoas pensam, criam e interpretam o tempo. Algo inerente a um tempo cronológico.
Benjamim enxerga cada época como um acúmulo de restos, fragmentos e lampejos. O zeitgeist não é uma unidade harmônica, mas sim uma tensão entre o passado e o presente. O espírito do tempo não opera como uma força dominante, mas há fissuras, lampejos e contradições que marca determinadas porções cronológicas. O tempo rememorado e relido dos anos de 1970, por exemplo, enxerga Joinville, a cidade, como um espírito de pujança industrial, e o futebol, como uma expressão sensível de época fez nascer um campeão. O Joinville, àquela época, alterou o mapa de domínio do futebol catarinense. Os processos de desindustrialização destituíram o grande campeão da década de 1980, de modo que a crise da indústria converteu-se também na crise do JEC.
Além dessa fissura, há outras que incomodam. O tempo dado para a disputa do estadual. No ano do primeiro título do Joinville, 14 clubes disputaram o torneio estadual. Os clubes foram, além do JEC, o Avaí e Figueirense, da capital, a Chapecoense; o Carlos Renaux e o Paysandu de Brusque, o Ferroviário de Tubarão, o Guarani de São Miguel do Oeste; o Internacional de Lages; dois Juventus, o de Jaraguá do Sul e o de Rio do Sul. Com eles, o Marcílio Dias de Itajaí, o Palmeiras de Blumenau e o Palmitos, que disputou este e o estadual seguinte.
Neste ano, foram 12 os participantes. A capital estava com os mesmos dois participantes, o Carlos Renaux voltou depois de um grande hiato, o Marcílio Dias e a Chapecoense repetiam o quadro, junto ao JEC, evidentemente. As demais equipes integraram a disputa pela primeira vez ou retornaram em moldes distintos: Camboriú, Santa Catarina de Rio do Sul, Criciúma, Brusque, Barra FC e Concórdia.
O torneio de 1976, foi disputado entre 03 de abril e 22 de agosto, somando 141 dias. Mas, o futebol catarinense sempre esconde algumas reviravoltas. O Juventus de Rio do Sul ganhou os pontos da partida contra o Figueirense, disputada em 08 de agosto pelas segunda fase. Com isso as finais entre Joinville e Figueirense foram anuladas. Em outubro, o Juventus e o JEC entraram em campo, para ida e volta. Mesmo com os jogos adicionais, o time da cidade de Joinville manteve a primeira conquista. Noutra coluna retomo esta história.
No ano de 2026, o catarinense, com um regulamento mais simples e com menos decisões judiciais iniciou em 07 de janeiro terminando em 08 de março, totalizando 60 dias. A quantidade de dias caiu além da metade. O espírito do tempo da atualidade é da velocidade, da superficialidade e da rapidez. O torneio estadual perdeu o espaço, o tempo e a importância. Tudo é rápido. São jogos que não trazem o tempo do amadurecimento do acontecimento, porque ele é sucedido por outro, por outro e por outro…
Tudo é tão rápido e não deu tempo para entender a queda do JEC. Do fracasso do estadual já veio a Série D do Brasileirão onde o JEC sequer passou de fase. Terminou a fase de grupos, o time despareceu. Já teremos a Copa Santa Catarina, que ele disputará com outro elenco, que me faz lembrar o “navio de Teseu”. São competições, sobre competições e quando vamos pensar, em vez de celebrar as bodas do primeiro título somos engolidos por tantas competições? Que tempo é este? Trata-se de um tempo em que se joga futebol, mas abdica-se de pensar sobre ele.
Sobre o autor
Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto. Doutor em Desenvolvimento Regional. Professor pesquisador ligado a Faculdade SENAC Blumenau e editor do podcast Tecendo Ideias (Top 100 Education Podcasts). Escreve aqui sobre o futebol catarinense.
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