Me lembro vagamente da primeira vez que tive contato com a Netflix.
Um colega de universidade estava com o notebook aberto e acessou sua conta para mostrar aquilo que vinha contando para outras pessoas. Um único site em que basta digitar o nome do filme, clicar e assistir completo, em boa qualidade, como se faz com um vídeo no YouTube. Sim, tem uma mensalidade, mas diante de toda aquela oferta? Era um preço muito baixo.
Isso foi lá em 2012. O mundo era um lugar bem diferente. Muitas das conveniências que temos hoje em dia estavam ainda no campo da ficção científica. Não tinha pix, pagamento por aproximação, rede social estava terminando a migração do Orkut para o Facebook e o ícone do Instagram era ainda esse:
Parece que a gente esquece, mas consumir mídia naquela época, fosse filme, música ou jogo, era bem diferente. Ainda andávamos fisicamente até locadoras, os CDs de músicas tinham que ser baixados, seja comprando num iTunes da vida ou por meios ilícitos, tudo muito rudimentar.
Pode parecer óbvio, hoje, ver o que a Netflix prenunciava. Um futuro de facilidades. Tudo feito do conforto de casa, sem depender do esforço de ir na locadora ou de uma programação compatível com nosso humor numa TV a cabo.
Mas só é fácil prever o futuro quando ele já aconteceu.
Naquela época, tudo era tão nebuloso e distante que um diretor da Sky, aquela TV por assinatura que tinha um controle remoto com mil botões, chegou a falar sobre a Netflix: “se começarem a nos incomodar, podemos comprar esses caras no Brasil”.
Em 2024, a Anatel reclassificou a Sky de “operadora de telecomunicações com poder de mercado significativo” para “prestadora de pequeno porte”. E os controles de mil botões vão parar em algum museu ao lado dos VHS’s verdes da Disney.
De lá pra cá, a gente sabe bem onde isso levou. Usando os filmes como exemplo, cada distribuidora queria uma fatia do mercado, foram então criando suas próprias versões do serviço. A estratégia da Netflix de se tornar grande o suficiente para ser imbatível e só então aumentar os preços não vingou no tempo que tinham de vantagem. Aumentaram o preço e foram perdendo participação de mercado. As concorrentes fizeram o mesmo. E foram piorando, criando assinaturas mais baratas que ofereciam menor qualidade, outras incluíram propaganda mesmo nas assinaturas pagas.
Não, esse não é um texto sobre shitfication, ou merdificação. Mas fica aqui a explicação: o termo foi cunhado por Cory Doctorow, jornalista canadense que escreve sobre tecnologia. A palavra serve para explicar a seguinte estratégia: conquistar uma fatia tão grande de mercado oferecendo condições extremamente atrativas. Tão atrativas que você fica no vermelho. Mas ok, todos querem usar. Quando essa fatia estiver consolidada na base do seu prejuízo, você começa a lucrar. Como? Piorando tudo aquilo que te fazia especial. Preço, qualidade do serviço, interface, experiência do usuário…
Essa é, obviamente, uma simplificação da ideia. Livros inteiros foram escritos para discutir partes desse problema, então não tenho pretensão de esgotar tudo em um parágrafo. É só pra podermos deixar tudo no mesmo nível. Talvez eventualmente a gente volte nisso.
Existe uma frase famosa que diz que no futuro “você não será dono de nada e será feliz”. Hoje falamos dessa frase como um prenúncio sombrio, mas é fácil entender que, no seu contexto original, ela era símbolo de um novo tempo. De um tempo glorioso em que as inovações tecnológicas iriam penetrar nas mais diferentes camadas sociais, acessíveis a todos. Afinal, renunciando à posse, poderíamos ao menos desfrutar.
A alegria que recebemos Spotify’s e Netflix’s no começo de suas vidas mostra bem que tinha motivo para se pensar assim.
Prova disso está na minha revolta passada quando recomendava filmes para amigos e recebia um “tem no Netflix?” como resposta. Não sei, cara. E não me importo. A gente cresceu na internet, se esse filme não existir no Netflix você tem capacidade de encontrar ele por outros meios.
Mas parece que a gente ignora nossa falta de titularidade em tudo aquilo que consumimos. E faz sentido ignorar. No fim do dia, muita gente ainda abraça a facilidade que existe em ter acesso ao catálogo virtual de um GamePass da vida assim, sem nenhuma dor de cabeça, na hora que a gente quer.
Mas essa falta de posse, tem ido além. E, pior, tem feito sua marcha de maneira silenciosa. Entrando nas nossas casas na ponta dos dedos e tomando aquilo que julgamos ser nosso bem nas letras miúdas dos termos e condições que aceitamos.
Então vale pensar, até onde se estende o grande campo daquilo que usamos sem possuir? Quais são os problemas disso? E, talvez mais importante: podemos fazer algo contra?
Recentemente, a Sony soltou uma nota afirmando que, a partir de 2028, não irá mais produzir jogos físicos para as plataformas PlayStation. Com isso, o próximo videogame deve ser 100% digital. Todas as vendas serão feitas dentro da loja virtual oficial do console. E a Microsoft não tem motivos para não seguir o mesmo caminho para o próximo Xbox.
Existe muita coisa nisso. O fim da possibilidade de revender um jogo ou até de emprestar para um amigo certamente é um golpe. Mas o foco aqui é em outro ponto. Um que causou ódio generalizado na internet quando a notícia saiu.
Quando você comprava um jogo físico, você tinha completa posse daquele produto. O disco era seu e com ele você fazia o que bem entendesse. Claro, descontando tudo aquilo que infringisse a lei no processo (não podia, por exemplo, criar cópias para revender).
Nos produtos digitais, você está limitado ao que a empresa permite que você faça. Isso fica bem evidente para quem decide ler as letras de contrato no site oficial, seja da Sony, Microsoft ou mesmo da Steam: você não compra o jogo, você aluga, por tempo indeterminado, a licença para usar aquele produto.
O contrato não chama de aluguel, mas afirma que sua posse daquilo pode ser revogada unilateralmente. E sim, isso já aconteceu. Aliás, a própria Sony fez isso recentemente.
Por questões de direitos autorais, uma série de filmes disponíveis para compra digital iria ser retirada das prateleiras virtuais da Sony. Não chega a ser prática incomum, mas dessa vez ia além: mesmo quem já tinha comprado, não poderia acessar o produto. Você pagou por algo e não poderia mais consumir. Uma realidade que jamais aconteceria com o finado mercado de DVD’s e BluRay’s.
Nos produtos digitais, você está limitado ao que a empresa permite que você faça.
Sim, no Netflix você paga para acessar o serviço e consumir produtos que você não tem. Mas a verdade é que, em muitos casos, mesmo pagando pelo produto, hoje em dia você ainda não tem posse real dele, e seu uso depende da boa vontade da empresa que te vendeu.
Ainda no campo dos jogos, em 2024, a Ubisoft decidiu desligar os servidores do jogo de corrida The Crew. Normalmente, isso significa que os jogadores ficariam impossibilitados de jogar online, o que é triste, mas parte do jogo. O problema é que, mesmo jogando sozinho, o jogo exigia um processo de validação. Sem os servidores, era impossível jogar em qualquer modalidade. O produto pelo qual você pagou ficaria inviabilizado.
Esse segundo caso, aliás, tem um detalhe: The Crew tinha mídia física. Você podia, por um tempo, comprar o BluRay ou DVD do jogo. Mesmo essas versões, agora, viraram peso de papel.
A verdade é que faz já um tempo que os jogos dependem tão massivamente de downloads de atualizações ou complementos, que a posse física garante só parte da segurança.
Mas ok, você não criou aqueles jogos. Uma equipe fez todo o trabalho por trás. De alguma maneira muito problemática, eles escolhem o que fazer com o produto deles. É diferente, por exemplo, de um texto que você escreve ou uma foto que você tirou.
O problema é que a conveniência tem chegado no triste patamar de também afetar essa área.
Porque, de um tempo pra cá, abraçamos a conveniência das nuvens. Quando tiramos uma foto, desocupamos espaço no celular jogando ela num Google Fotos da vida. Liberamos alguns MBs no aparelho e ainda temos um backup seguro pro caso de um dia nosso celular cair na piscina. Até para escrever textos, usamos ou um Google Docs ou um Notion da vida, produtos que não precisam ocupar espaço no nosso computador.
Para tudo isso, basta abrirmos o navegador, entrarmos numa URL e pronto, o recurso está lá, no computador de outra pessoa.
Sim, porque esse é o ponto que ignoramos. Não por não sabermos, só porque não faz muita diferença. E, mesmo que todos tenham conhecimento, vale a pena relembrar: a nuvem não existe, é apenas um computador de outra pessoa ligado.
Claro que, nesse caso, a outra pessoa é uma instituição séria, certificada e que sofre grande pressão para manter uma certa qualidade no tratamento que faz dos dados de terceiros. E, na maioria das vezes, essa é a realidade prática. O que é bom, já que muitas pessoas guardam vidas inteiras nesses ambientes. Não só fotos e textos, mas backup de documentos pessoais, contratos de trabalho, resultados médicos e tudo mais.
Esse era o caso da Ana, por exemplo. Uma especialista em serviço de IA que recentemente perdeu acesso completo a toda a suíte do Google. Quando isso aconteceu, calhou dela estar no meio de uma reunião via Meet e simplesmente ser deslogada, não conseguindo acesso a mais nada. Ela explica melhor o caso num post do Instagram.
Talvez a parte que mais ligue o alerta nem seja o relato, mas o comentário de pessoas relatando terem sofrido o mesmo. Pra piorar, diferente da Ana, todo o resto não conseguiu reaver o acesso.
E, fato é, a empresa tinha o direito de fazer isso. Afinal, ela estava usando o espaço deles para guardar esses documentos. Nas letras miúdas que acordou, ela renunciava a ser a real detentora daqueles documentos em troca da facilidade de poder acessar de qualquer computador, bastando acesso à internet para isso. Ok, boa prática é manter sempre um backup atualizado. Mas não vamos culpabilizar a vítima nem passar pano pra empresa gringa bilionária.
Essa não é a única decisão unilateral do Google que pode afetar o consumidor final. Algum tempo atrás, para disseminar sua presença em universidades públicas, a empresa disponibilizou para as instituições acesso aos recursos de armazenamento de maneira ilimitada.
Grupos de pesquisa, professores e alunos poderiam guardar lá tudo que julgassem necessário. Além disso, os e-mails seriam também hospedados lá, garantindo ainda mais espaço para a troca de informações.
Tudo ia relativamente bem (não ia, mas vamos com calma) até que a decidiu-se, unilateralmente, que o espaço não seria mais ilimitado, mas restrito a 100TB por conta. Parece muito pra um usuário doméstico, mas não para instituições públicas. A UFJF, por exemplo, relatou ter um total de 700TB de informações relativas a ensino, pesquisa e extensão. E, subitamente, elas teriam que encontrar um novo “lar”.
O caso da UFJF acabou resultando em multas pra Google. Mas esse é só um exemplo. Em 2022, um estudo com 144 universidades públicas mostrou que 103 faziam uso de infraestrutura da Google.
Esse caso é ainda mais grave. Estamos aqui falando de pesquisa pública brasileira. Soberania nacional. Tudo isso sendo salvo nas instalações físicas de uma empresa americana que poderia ditar as regras de acesso de maneira unilateral.
Isso tudo sem nem precisar entrar no uso desses dados para outros fins. Atualmente, existe pouca segurança de que arquivos pessoais não vão ser usados para esse treinamento de IA’s. Aliás, a própria Google incentiva indiretamente que usuários liberem seus arquivos pessoais, seja documentos, textos ou e-mails, para os modelos. A justificativa é que, assim, eles poderão oferecer respostas mais personalizadas para cada usuário. Poderia, por exemplo, sugerir férias em praias ao perceber que todas as suas fotos felizes eram em praias. Uma grande conveniência.
O treinamento de IA não deve ser ignorado nessa discussão. Quando o Instagram decide usar as fotos dos usuários para treinar os modelos da Meta, existe uma extração de valor. Eles usam um recurso criado por usuários para gerar lucro interno. Afinal, modelos mais bem treinados geram um retorno maior para a empresa. Dizem que “quando é de graça, o produto é você”. Sim, em partes. Mas, atualmente, é de graça porque você é a matéria prima que ira gerar lucro.
E isso nem é algo novo. Desde os modelos preditivos nas redes sociais, como os da Cambridge Analytics, as empresas já usavam as informações dos usuários como forma de desenvolver tecnologias para agregar valor. O que era possível porque passamos, como sociedade, a entregar tudo para essas empresas. Uma mais-valia de informação sendo usada para lucros privados.
A verdade é que cada vez mais perdemos a soberania sobre aquilo que produzimos digitalmente. Seja usando recursos de outras empresas, não tendo a posse daquilo que compramos, pagando para alugar serviços ou simplesmente abrindo informações pessoais para empresas.
É um futuro meio cyberpunk. Grandes conglomerados privados controlam com acesso a tudo da sua vida. E ser fechado para fora deles, ainda que apenas como consumidor, pode travar sua vida privada. Para continuar existindo dentro desse ecossistema, você precisa abrir mão de possuir coisas, de ter segurança até sobre aquilo que você mesmo produz.
Uma vida à mercê de uma série de CNPJ’s.
Felizmente, tal qual os bons cyberpunk’s, existem boas formas de combater essas práticas. Ainda que realmente seja difícil existir sem entrar nesse meio, é possível garantir a soberania digital pelo menos para aquilo que realmente importa.
Não existe consumo sustentável no capitalismo. Não vou me estender nessa conversa. Mas vou admitir que certamente alguns consumos são muito mais danosos para o ecossistema social do que outros. O que se está discutindo aqui é justamente uma versão mais agressiva e consideravelmente mais prejudicial para o usuário final. Um consumo que muda as regras nas letras miúdas e deixa a pessoa acreditar que está tudo ok.
Nos fóruns sobre videogames, por exemplo, a questão da Steam vender não jogos, mas licenças, é raramente levantada. A loja é exaltada pelos bons preços, opções de compartilhar jogos com amigos e políticas amigáveis de reembolso.
Longe de serem práticas ruins. A questão é que bonança nenhuma devia ser justificativa para ignorarmos o fato de não sermos donos daquilo que pagamos.
Digo isso para lembrar que existem opções. A GoG, outra loja de jogos online para computadores, é tida como concorrente da Steam mas com uma diferença notável: lá, só entram jogos sem nenhum tipo de proteção de direitos autorais digitais, chamados de DRM (um exemplo disso é o que travou o jogo offline no The Crew).
Na prática, isso quer dizer que a empresa que te vende o jogo jamais vai ter controle sobre o que você faz com o produto. Se quiser baixar, colocar em um pen drive e levar pra instalar e jogar na casa de um amigo, você pode. Eles inclusive fornecem o instalador como arquivo único pronto para fins como esse.
O ponto de não ter consumo sustentável não deveria nos impedir de consumir em lugares com melhores práticas. Infelizmente, equivalentes ao GoG são raros, eu, por exemplo, não conheço nenhum para filmes ou músicas. Sim, da pra usar a velha mídia física, passar para seu computador e deixar lá, sem subir para nenhuma nuvem, a salvo das garras de terceiros. Mas, num mundo completamente conectado, em que podemos querer ouvir uma música na academia ou ver um filme na TV de um amigo, é fácil ver por que essa solução é pouco prática como resposta completa.
E o fato é que ela é só parte da resposta. A parte realmente interessante vem quando decidimos reproduzir o esquema de servidores das empresas de maneira doméstica.
Sem entrar em um linguajar muito técnico, a nuvem é só o computador de outra pessoa. No caso de exemplo, o Google. Mas pode ser também os computadores onde a Netflix guarda seus filmes, a Steam seus jogos, o Spotify suas músicas e assim por diante.
Quando acessamos qualquer um desses serviços, entramos nesses computadores e consumimos o que queremos (e o que temos acesso). Mas, no fim, é só um computador ligado à internet. E isso é algo relativamente simples de fazer, montando um servidor dentro da sua própria casa.
Esse sim é, na minha opinião, o primeiro passo para retomar parte do controle sobre sua vida digital. Obviamente, tem um preço. E, apesar do teto dessa ideia ter um valor muito alto, o piso mínimo para se começar a ter resultados extremamente práticos pode ser muito baixo.
Se você tem, na sua casa, um notebook sem uso em algum canto, independente da idade dele, você tem tudo que precisa para ter um servidor caseiro que fará fácil o papel de um Google Drive, Netflix e outros. Basta formatar e instalar um sistema operacional feito para servidores. E se isso parece algo complexo, garanto que um vídeo no Youtube de 5 minutos explica tudo, do início ao fim, sem nenhuma complexidade.
Uma vez que seu notebook/servidor esteja configurado e pronto, basta achar um canto pra ele (preferencialmente perto do modem para usar o cabo de rede), pegar seu computador de uso principal e entrar no notebook/servidor. Atualmente, muitos desses sistemas operacionais oferecem uma interface na web. É só abrir o navegador em outro computador conectado na mesma rede (e pode ser por WiFi), digitar o IP do servidor e pronto. Você está dentro dele.
Esse tipo de construção necessita “só” de um sistema que permita alterações e consiga se conectar na internet. Já vi pessoas fazerem isso usando celulares velhos e até com um PlayStation 3, embora nesses casos o conhecimento técnico equivalente seja um pouco mais elevado.
Uma vez que seu servidor esteja pronto e rodando, o céu é o limite. É literalmente um computador em que você vai instalar programas com os recursos que você quer.
“Ou seja, igual meu computador, pra que fazer isso então?”. Ótima pergunta. Porque seu computador é uma coisa única e fechada. O servidor é feito para ser acessado por diferentes fontes. Se tiver algum aplicativo no seu celular que possa se comunicar com o servidor, pronto. O mesmo vale para sua Smart TV.
Para exemplificar, imagine um sistema de automação residencial. Lâmpadas, robôs aspiradores e fechaduras eletrônicas, todos de marcas distintas e com aplicativos próprios. Aplicativos esses feitos pelas fabricantes e que, vez ou outra, mandam dados para elas. Você pode configurar o seu servidor como centro de comando de todos esses recursos. Esse programa roda inteiramente no seu servidor, toda comunicação que ele fizer vai ser uma escolha sua.
Dai, instala um aplicativo no seu celular desse mesmo programa. O aplicativo se comunica diretamente com seu servidor (juro, é fácil configurar) e pronto. Todo o sistema de automação da sua casa é seu.
Se, um dia, as empresas decidirem “fechar” os aplicativos oficiais, não importa. O que é seu continua sendo seu. A hospedagem disso não é feita no servidor deles, mas auto-hospedada no seu.
E essa é uma possibilidade. Existem várias outras, muitas delas já feitas para substituir aplicativos conhecidos. O Immich, por exemplo, funciona como um Google Fotos em que todas as fotos ficam salvas apenas no servidor. O limite de armazenamento fica no que sua necessidade pedir e seu bolso aguentar. O NextCloud oferece uma estrutura completa equivalente ao GoogleDrive, incluindo calendários, armazenamento de arquivos e conversas internas. O AnyType funciona como um Notion/Obsidian em que o centro de hospedagem fica não na empresa, mas no seu computador, sem precisar de plano pago. O Jellyfin é uma solução que analisa todas as suas mídias de filmes e gera um catálogo com interface próxima de um Netflix da vida, acessível de qualquer lugar.
Juro, a chamada comunidade selfhost cria ferramentas tão diversas que às vezes me deixa um pouco chocado. Essa semana descobri que alguém fez um serviço para organizar clubes de pescaria de maneira local.
Obviamente, esses recursos podem ser configurados para acesso de redes externas. E é bem fácil fazer isso de uma forma segura sem expor sua rede na internet para ataques. Configurações de VPN (Tailscale, por exemplo) são processos seguros e, como todo o resto, fáceis de encontrar tutoriais na internet explicando o processo. Na dúvida, existem fóruns muito bons para isso. A comunidade é bem amigável com novatos, algo bem raro em coisas nichadas.
A barreira de entrada para criar um servidor caseiro é atualmente muito baixa. Claro, para uma opção mais robusta, rodando máquinas virtuais e modelos de IA locais, o custo sobe muito rapidamente. Mas tudo que coloquei aqui pode facilmente ser feito em qualquer computador velho que você por acaso tenha por ai. E, sendo bem honesto, acho que comprar um notebook surrado e barato só para rodar um servidor é uma excelente troca.
O ideal é começar com o que já tem. E parte da graça é justamente o quão escalável é isso. Você não vai estar preso para sempre a essa arquitetura inicial que montou. No futuro, se quiser trocar tudo, incluindo os HDs, é bem fácil fazer backup para novas unidades de armazenamento.
E, embora a parte técnica possa assustar, não deveria. As tecnologias estão bem simples de serem aplicadas atualmente, e os tutoriais no YouTube oferecem diversos passo a passo que oferecem bastante segurança para quem não tem familiaridade com o meio. Por fim, mesmo sendo do clube dos anti-IA, acho que ela tem uma ou outra função válida. E o uso para questões técnicas é um deles. Tirar algumas dúvidas de aspectos menos específicos pode ajudar a guiar alguém iniciando nesse mundo.
A soberania digital é um debate que ainda não atingiu o mainstream da maneira que merece. Muitas pessoas estão confortáveis abrindo mão de serem donas de suas próprias informações. E, honestamente, não culpo todas elas. Eu não espero, por exemplo, que meus pais, de 65 e 66 anos, desistam do backup no Google Photos e instalem um servidor caseiro para usarem (embora eles estejam em vias de passar a usar o meu, mesmo morando a 500km de distância).
Para muita gente, infelizmente, a situação atual ainda é ok. E eu não quero censurar elas ou lançar um olhar de desprezo, de quem acha que eles estão cometendo algum crime ou vivendo numa triste ignorância que eu sinto pena. Jamais.
Se, para muitos, a situação atual é confortável e preferem continuar nela, coloco a culpa 100% nas BigTechs. Afinal, são elas que ainda conseguem criar um ecossistema de onipresença que trava muitas pessoas nesses ambientes privados. A verdadeira briga continua sendo contra essas grandes empresas. A criação de um servidor caseiro é apenas um pequeno ato de resistência.
E, se você leu tudo até aqui, entendeu o problema da falta de soberania digital, mas ficou com preguiça de montar um servidor, honestamente, esse texto cumpriu sua função principal e eu fico satisfeito.
Mas, se optou pelo servidor e ainda precisa de ajuda, só mandar mensagem sobre.

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