Oi! Luciana Corrêa, editora-chefe da Lupa, por aqui. Na Lente desta sexta a repórter Evelyn Fagundes fala sobre o caos informacional que virou uma inspeção da Anvisa e de como, mais uma vez, fanáticos transformaram um caso de saúde pública em desinformação. É, amigos, não tá fácil! Boa leitura e um fim de semana de paz para todos.
Caso Ypê: mais uma vez a polarização vira obstáculo à saúde pública
Tem assunto que viraliza nas redes tão rápido que, quando a gente percebe, já se misturou o que é notícia, opinião, meme ou desinformação. Foi o que aconteceu com o caso Ypê. Em poucos dias, um alerta sanitário da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) saiu do campo da saúde pública e entrou de vez na guerra política das redes. Grupos bolsonaristas passaram a mobilizar apoio à marca e enquadrar o caso como perseguição política. A narrativa se concentrou no fato de a Ypê ter doado recursos à campanha de Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
Para relembrar: no dia 7 de maio, a Anvisa suspendeu a fabricação, distribuição e comercialização de produtos da marca fabricados pela Química Amparo, no interior de São Paulo, após identificar risco de contaminação microbiológica.
A repercussão foi imediata e rapidamente o debate deixou de ser sobre saúde pública. Na newsletter 🔥Ebulição publicada no dia 12, meu colega Ítalo Rômany mostrou como as menções à Ypê começaram no dia 7, mas atingiram pico dois dias depois, no sábado, dia 9. Segundo dados da plataforma Meltwater, a média diária de publicações sobre o tema no X e no YouTube chegou a 17,2 mil. No X, surgiram teorias, sem qualquer evidência de que a decisão da Anvisa teria ocorrido após a empresa anunciar apoio ao pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). Um dos posts mais compartilhados dizia: “Bastou declarar apoio ao Flávio Bolsonaro que encontraram bactéria em desinfetante que elimina 99% das bactérias”. A publicação ultrapassou 146 mil visualizações.
Enquanto isso, aqui na redação, começamos a monitorar a enxurrada de conteúdos enganosos sobre o caso.
Circulou, por exemplo, uma publicação afirmando que a Ypê teria divulgado um comunicado celebrando “recorde histórico de vendas” após a suspensão dos produtos. Era falso. Em nota à Lupa, a empresa afirmou que nunca publicou o comunicado. Uma consulta na internet, através de buscadores, já mostraria que a informação não circulou em nenhum veículo, o que já deveria ser motivo de desconfiança. Mas, no Facebook, um dos posts que compartilhava a narrativa tinha mais de 4 mil curtidas.
Depois, vieram vídeos e imagens mostrando supostos bolsonaristas “invadindo” uma fábrica da empresa e levando caixas de produtos O conteúdo também era falso e havia sido gerado por inteligência artificial (IA). Apesar de ter várias falhas, como distorções em rostos e braços, muita gente acreditou e, no YouTube, o vídeo falso tinha mais de 30 mil visualizações.
A situação rapidamente ganhou contornos ainda mais absurdos.
Teve post mostrando o presidente Lula sendo atacado com detergentes em um supermercado. Também circulou vídeo feito por IA em que o petista é “lavado” com um produto da marca até se transformar em Bolsonaro. Em outra montagem, a primeira-dama Janja aparece chorando ao lado da frase: “Janja chora e compara detergente contaminado com a pandemia ‘até quando isso, meu Deus?’”
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, criticou a politização do caso e lembrou que o diretor da Anvisa responsável pela área que fiscaliza e suspende produtos foi indicado pelo governo Bolsonaro. Na prática, porém, esse detalhe virou coadjuvante no debate online.
Ou seja, a suspensão não tem nada a ver com a política. De fato, medida cautelar que determinou a interdição dos produtos foi emitida pela Gerência-Geral de Inspeção e Fiscalização Sanitária (GGFIS), que é subordinada da Quarta Diretoria da Anvisa, cujo diretor é Daniel Meirelles Fernandes Pereira, indicado por Bolsonaro.
Talvez esse seja o aspecto mais preocupante da história: temas que impactam diretamente a saúde pública passam a ser interpretados primeiro pela lógica da polarização. Antes mesmo de muita gente tentar entender o alerta sanitário, a discussão já tinha sido absorvida pela disputa política, pelo engajamento e pelas narrativas desinformativas nas redes.No fim, o risco microbiológico virou pano de fundo.
E fica aqui a recomendação: priorize informações publicadas por órgãos oficiais, veículos jornalísticos confiáveis e agências de checagem.
Nesta semana viralizou nas redes uma fala do ator Juliano Cazarré que afirmou, em entrevista à GloboNews, que “mais homens são mortos por mulheres do que mulheres por homens” no Brasil. A fala é falsa e distorce dados oficiais sobre feminicídio. Em março, a repórter Carol Macário mostrou que posts no TikTok e Instagram com mais de 235 mil visualizações usavam a mesma comparação errada entre os registros de homens vítimas de mortes violentas intencionais (MVI) e os de feminicídios, divulgados na edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, para sustentar essa narrativa falsa. Vale ressaltar que os números usados na narrativa viral — replicada pelo ator — misturam dados de letalidade policial, estatísticas mundiais e cálculos sem base científica para tentar minimizar a violência contra as mulheres. [Evelin Mendes, editora]
O Observatório da Lupa publicou nesta semana um relatório bem interessante sobre a onda de desinformação em torno do chamado “PL anti misoginia”, aprovado pelo Senado em março. O estudo mostra como políticos e influenciadores da extrema direita espalharam conteúdos enganosos para associar o projeto à censura, perseguição religiosa e ameaça à liberdade de expressão. Entre as narrativas falsas que viralizaram estavam boatos de que perguntar se uma mulher está de TPM poderia virar crime, que trechos da Bíblia seriam proibidos e até que empresas estariam demitindo mulheres para evitar processos. O relatório também mostra como trechos de projetos diferentes foram misturados para distorcer o debate nas redes. Vale a leitura do estudo e da reportagem do Ítalo Rômany que destrincha os dados do relatório. [EM, editora]
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