Tem dias que me acho muito ingênua. Tem dias que acredito que as redes sociais estão aqui para nos distrair do que realmente importa. E tem dias que eu me pergunto porque é tão fácil criticar outras mulheres na internet ao invés de apoiá-las.
Quando a Reese Witherspoon divulgou, em suas redes sociais, um vídeo falando da importância das mulheres aprenderem IA eu vibrei e compartilhei. Acho importante que mais mulheres em posição de poder falem sobre isso. Mas, em seguida, veio o backlash das redes sociais e fui tentar entender porque.
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Reese é conhecida por seu discurso feminista e, ao mesmo tempo, frequentemente acusada de ser oportunista, ainda que de fato tenha criado um império e que esteja abrindo espaço para narrativas mais femininas. A Hello Sunshine, empresa criada por Reese em 2016, é responsável pelo seu clube de livros, assim como sucessos como “Big Little Lies” e “The Morning Show”. Em 2021, a empresa foi parcialmente vendida para um grupo de mídia chamado Blackstone, o que gerou algumas críticas sobre seu estilo “girl boss”.
Enquanto mulher branca e privilegiada, talvez ela devesse lutar contra o capitalismo, trazer mais diversidade para suas produções ou ser mais crítica em relação a Inteligência Artificial? Com certeza, mas a verdade é que você pode até não gostar, mas ela está mudando o jogo. E não está errada ao dizer que é o momento de as mulheres aprenderem IA, sim. Enquanto Ben Affleck investe em IA nos bastidores e ninguém fala quase nada, Reese está sendo atacada por fazer um convite.
Você pode aprender como a IA funciona, se preparar para a revolução e ainda ser crítica aos efeitos ao meio ambiente, ao consumo de água, e com as questões éticas ao redor do uso de propriedade intelectual em Hollywood. Não entender da tecnologia, ao meu ver, não é benéfico para nenhuma mulher. Você pode entender como IA funciona e decidir não usar, mas é importante saber com o que você está lidando ao tomar essa decisão. A Reese não tirou da cabeça dela que as mulheres precisam dominar o assunto.
O que os dados mostram sobre IA e mulheres:
Não vou entrar no impacto no mercado de trabalho porque já falei sobre isso aqui, mas sim compartilhar o “working paper” publicado pela Harvard Business School chamado “Global Evidence on Gender Gaps and Generative AI” (2024/2025), que apresenta uma análise bastante abrangente sobre a disparidade de gênero no uso de ferramentas de IA Generativa como ChatGPT, Claude e Perplexity. Aqui vão os dados:
O documento sintetiza informações de 18 estudos abrangendo mais de 140.000 indivíduos em todo o mundo.
Mulheres são, em média, 20% menos propensas que os homens a utilizar ferramentas de IA generativa diretamente.
Uma meta-análise formal de 12 estudos indicou que as mulheres têm 22% menos chances de usar essas ferramentas do que os homens.
Em comparação com o masculino, a proporção de mulheres que utilizam IA é frequentemente 10% a 40% menor.
Alguns dados de estudos específicos nos ajudam a entender diferentes contextos:
Nos EUA (Fed de NY): 50% dos homens usaram IA generativa nos últimos 12 meses, contra apenas cerca de 33% das mulheres.
Profissionais dos EUA (Glassdoor): 54% dos homens usam IA, comparado a 35% das mulheres.
Estudantes Universitários (EUA): 64% dos homens vs. 48% das mulheres usam IA para trabalhos ou exames.
Microempresas (GoDaddy): Foi encontrada uma lacuna de gênero de 6,6 pontos percentuais.
Quênia (KGAAS - 17.541 pessoas): Mesmo quando o acesso e a oportunidade de aprender foram equalizados, as mulheres continuaram 13,1% menos propensas a usar o ChatGPT.
O único estudo que não mostrou uma lacuna negativa para mulheres foi o da Boston Consulting Group (BCG), com funcionários de tecnologia. Nesse grupo, as mulheres em cargos técnicos seniores eram 3% mais propensas a usar IA do que os homens. Mulheres em cargos juniores ainda apresentavam lacunas significativas.
Os autores identificaram ainda três razões para essa disparidade:
Conhecimento e Familiaridade: Mulheres relatam consistentemente menor familiaridade e conhecimento sobre ferramentas de IA.
Confiança: Mulheres têm menor confiança em sua capacidade de usar IA de forma eficaz (ex: criar “prompts”). Homens mostraram-se mais persistentes ao tentar prompts adicionais quando o resultado inicial é indesejado.
Ética e Moralidade: Mulheres são mais propensas a considerar o uso de IA em tarefas educacionais como antiético ou trapaça.
E esse é só um dos estudos que falam sobre o gap de gênero na IA que encontrei. O AI Index Report 2026 do Stanford HAI tem outras informações que reforçam a preocupação sobre a relação das mulheres com IA, especialmente na criação delas.
Mulheres são ~22% da força de trabalho em IA
Apenas ~30–35% dos diplomas em Ciência da Computação são de mulheres
Mulheres representam menos de 25% das contratações em IA
Funding em IA é concentrado e com baixa participação feminina
Mas e Alex Karp da Palantir?
Bom, espero que eu e a Reese tenhamos conseguido te convencer. Até porque a conversa entre os homens está indo para um outro lado, que sinceramente não sei se é o caminho que queremos percorrer. É só pegar o exemplo de Alex Karp, CEO da Palantir, empresa que há poucos dias postou no “X” (ex-Twitter) uma espécie de manifesto. O tweet-manifesto é composto de 22 tópicos oriundos do livro que Alex Karp e seu colega Nicholas Zamiska publicaram recentemente chamado “The Technological Republic”. Para quem não está familiarizado, a Palantir é uma empresa de tecnologia que tem vários contratos com o governo dos EUA e do Reino Unido e que tem muita entrada nos departamentos de defesas de vários países ao redor do mundo.
Basicamente, o tweet-manifesto defende que as sociedades ocidentais precisam voltar a valorizar o chamado “hard power”, ou seja, força militar, segurança nacional e domínio tecnológico. Em alguns momentos, sugere até ideias como a retomada do serviço militar obrigatório e argumenta que paz e progresso dependem de força.
Um dos pontos centrais, porém, é que o futuro dos conflitos será moldado pela inteligência artificial, em uma espécie de “guerra de IA”. A lógica é direta: se “nós” (nós, os EUA) não desenvolvermos essas tecnologias, nossos adversários irão desenvolver. Portanto, a prioridade no que diz respeito à IA não deveria ser cautela e moderação, mas velocidade e liderança. O post afirma ainda que “algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas”.
Os três últimos tópicos são os mais preocupantes. Aqui, na tradução livre:
20. A intolerância generalizada em relação à crença religiosa em certos círculos precisa ser combatida. A intolerância da elite em relação à religião é talvez um dos sinais mais reveladores de que seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos de seus integrantes afirmam.
21. Algumas culturas produziram avanços fundamentais; outras permanecem disfuncionais e regressivas. Hoje, todas as culturas são tratadas como iguais. Críticas e julgamentos de valor são proibidos. No entanto, esse novo dogma ignora o fato de que certas culturas — e, de fato, subculturas — produziram realizações extraordinárias. Outras se mostraram medianas ou, pior, regressivas e prejudiciais.
22. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e oco. Nós, nos Estados Unidos e, de forma mais ampla, no Ocidente, passamos o último meio século evitando definir culturas nacionais em nome da inclusão. Mas inclusão em quê?
Ou seja, bora nos preocupar com a nossa inclusão?
A repórter de IA do The Guardian Aisha Down explica em vídeo o manifesto da Palantir (ENG)
Em UK, o pessoal do The Guardian tá cobrindo bem a Palantir. (ENG)
Para que gosta dos bastidores, um pouco de como a IA tá sendo recebida em Hollywood (ENG)
(Falando nisso, nessa semana e fizeram a primeira edição do Claud.IA, workshop de IA harmonizado com vinho e foi um sucesso! A segunda turma já fechou, mas a terceira está aberta, inscreva-se aqui! Por enquanto só SP, mas em breve online!
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