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Beto Queiroz · Dec 1, 2025

Rituais de Luz

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ADALBERTO DE QUEIROZ · Beto Queiroz

O som e as luzes do Natal estão à nossa volta e no ar deste mês de dezembro. Retornam à nossa memória os bons sentimentos que essa época inspira e os rituais que este período da Natividade instaura e restaura, ano após ano.

A tradição do Natal cristão inclui a ceia em família, presépios, árvores decoradas, canções, luzes, contos e poesia, como esta do goiano Miguel Jorge:

“Eis aqui o Natal posto sobre a mesa.
Deitam-se os sonhos em pratos de ouro,
na medida certa de suas engrenagens (...)
Eis aqui, em caldeamento de cores, a chama
azul a aureolar cabeças (...)
O fresco e claro som das orações a iluminar o renascer
de uma bela e antiga história.”

As nossas imagens do Natal foram moldadas pelas pinturas da manjedoura, onde repousa o Menino, sob o olhar cândido de Nossa Senhora e São José, cercados pelos animais que homenageiam o Deus encarnado, assistidos do alto por Anjos e iluminados pela estrela que anunciara sua chegada ao mundo.

A história do Natal cristão é fundamental para os fiéis. Ela narra a vinda do Filho de Deus, “aquele que emergia da glória para o mundo material, passando da eternidade para o tempo”, conforme a releitura da teóloga Margaret Barker.

Os evangelistas que primeiro contaram essa história viviam em um mundo repleto de símbolos e esperanças, influenciados pela tradição do Templo em Jerusalém. Para eles, o Natal representava não só um evento religioso, mas também um momento de renovação espiritual e de conexão entre o divino e o humano.

Apesar das celebrações da Igreja terem sido apropriadas por uma avalanche de iniciativas mercadológicas, há nos eventos grandiosos como o Natal e a Páscoa, a manutenção de rituais que preservam o sentido de comunidade que cada Templo ou grupo de fiéis reacendem ao se reunirem em torno dessas datas.

Eis aqui o Natal…

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han nos ensina que “rituais são ações simbólicas que transmitem e representam todos os valores e ordenamentos que portam uma comunidade”.

O pensador nos fala de eixos de ressonância: verticalmente, com Deus, o cosmo, o tempo e a eternidade; horizontalmente com os membros da Igreja, da congregação, da confraria; e diagonais, em relação às coisas – a ceia de Natal, o brilho das luzes, os presentes que são trocados – “os sonhos em pratos de ouro”, como canta o poema de Miguel Jorge...

Quando jovem, agradava-me passear pela cidade e mostrar as luzes desta época do ano às minhas filhas. Encantava-nos a iluminação da imobiliária Polo e o “túnel de luzes” da Praça Tamandaré. Alegra-me sentir uma sensação de continuidade, ao saber que elas mantiveram a tradição ao mostrar a belíssima decoração natalina de Goiânia para meus netos.

Gosto de pensar que esses rituais reacendem a fé e esperança em tempos melhores.

Ao tentar lembrar-me de quando essas luzes começaram a preencher minhas recordações do Natal, só me vem à mente uma pequena árvore no orfanato em Anápolis, enfeitada com algodão e sem luzes, envolta em um claro-escuro que embaça as lembranças e contrasta com a árvore iluminada e bem decorada em nossa sala hoje.

Read the original on adalbertoqueiroz.substack.com

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