Para que pensar estilo em 2026? O que significa pensar estilo em 2026? As pessoas ainda querem saber disso?
Se você buscar meu arquivo de textos no Substack ou rolar meu feed do Instagram pra tentar entender o que tenho feito da vida, vai perceber que eu sou meio obcecada em pensar o futuro da minha profissão (pra quem não sabe, sou personal stylist, mas me identifico mesmo como educadora dessa área).
Nessa toada, em 2025, eu publiquei a primeira edição da revista STYLEBREAKERS, uma publicação independente, com alunas convidadas a se juntar a mim nessa reflexão e também promovi o primeiro evento STYLEBREAKERS, com convidados de outras áreas com o mesmo objetivo.
Nesse ano de 2026, teremos a segunda edição de ambas as coisas e nos últimos meses, me vi mergulhada no desafio de escrever o meu artigo para a revista que dará origem à minha palestra no evento.
Se o assunto é futuro, a relação entre estilo pessoal e tecnologia parece mais que óbvia e esse foi o primeiro caminho que pensei em percorrer: como a IA está impactando o estilo pessoal?
Tendo isso mais ou menos definido, segui para a fase de pesquisas. E qual foi minha surpresa ao perceber que, aparentemente, não está. Pelo menos não de maneira direta como era minha hipótese inicial.
Comecei mapeando o termo “estilo pessoal” de forma mais ampla, e aí fui pras redes sociais, veículos comerciais especializados (como Business of Fashion, NY Times, Vox, WGSN, Dazed, etc) e cheguei nos artigos acadêmicos.
Em todos esses lugares, os termos colados no termo “estilo pessoal” eram “Gen Z” e “redes sociais”.
Nada de IA.
Como ainda estava interessada nessa relação — não só porque é o assunto do momento, mas porque estou desenvolvendo um projeto que envolve exatamente isso —, fui buscar os dois termos juntos.
E lá fui eu percorrer todos os lugares citados acima e... nada!
Os artigos que falam de IA e moda (que, veja bem, tem uma relação com estilo pessoal, mas se trata de outra coisa) falam de como as marcas e e-commerces tem usado IA. E aí falamos de sistemas de busca, provadores virtuais, etc, etc.
Diante dessa ausência de informação fui obrigada a mudar o foco do meu artigo na revista, afinal, eu não queria escrever com base em achismos que não se confirmaram, mas fiquei refletindo sobre essa ausência.
Não tenho respostas definitivas nem pretensão de encontrá-las — até porque muita coisa ainda vai surgir e mudar com relação à IA, mas cheguei em duas ideias que quero compartilhar.
Será que a IA vai roubar o meu trabalho?
Esse questionamento tem surgido muito entre minhas alunas — e entre todo mundo com um trabalho, verdade seja dita.
Essa ideia parte do princípio que as pessoas estariam usando a IA para fazer perguntas sobre o próprio estilo ou para entendê-lo melhor.
O que minha pesquisa aponta é que as pessoas estão, sim, fazendo isso (basta ver que o ChatGPT já tem agentes como Fashion Advisor e AI Fashion). Mas esse comportamento ou ainda não é tão massivo a ponto de mudar a nossa relação com estilo pessoal (da mesma maneira como as redes sociais mudaram) ou que as respostas da IA não foram capazes de fazer isso.
Porque, convenhamos, dependendo do uso, a IA é só um Google mais sofisticado: não é criativa, é gerativa, e toda resposta será uma versão bem amarrada do que já existe na internet.
A segunda hipótese é que para que a IA trouxesse alguma transformação diferente do que o Google, o Pinterest, o TikTok e o Instagram já trouxeram, as pessoas precisariam fazer perguntas muito bem elaboradas e, na minha experiência como personal stylist, as pessoas mal conseguem responder às perguntas que eu faço, que dirá pensar nas perguntas em si, ou seja, dificilmente sairá algo daí que vá acabar com o trabalho de personal stylist.
A outra hipótese é que, definir, encontrar, descobrir o estilo pessoal nem é uma preocupação das pessoas em geral e, portanto, elas não teriam por que tentar resolver esse dilema com a IA e eu aposto bastante nessa hipótese apesar de achar que: 1. Ela não é exatamente nova e 2. As pessoas acham que não estão preocupadas, mas sofrem com os sintomas de não pensar sobre isso.
Sobre a hipótese 1: apesar de consultoria de estilo não ser uma profissão nova e de ser uma profissão que, sim, foi se popularizando e acessibilizando ao longo do tempo, ela nunca foi um trabalho de primeira necessidade. A maioria das pessoas, no Brasil, pelo menos, tem questões mais urgentes pra pensar do “qual é o meu estilo”.
Mas não pensar sobre estilo, me leva a hipótese 2: todos os artigos que encontrei falando sobre estilo pessoal apontam para o cansaço estético, a homogeneização, o consumo desenfreado, a sensação de FOMO e de desespero diante de tantas opções. Há também inúmeros artigos falando sobre dress code (ou ausência de) no trabalho no mundo pós-pandemia e Vale do Silício. Há também uma enxurrada de artigos falando de consumo excessivo e descarte precoce. E as dúvidas sobre “o que vestir em tal ocasião” continuam fazendo parte do cotidiano das pessoas de tal forma que têm espaço cativo no NY Times. Não estamos dando sinal de que abandonaremos as roupas num futuro próximo e a moda continua carregando enorme carga cultural.
E pode não parecer, mas as respostas para muitos desses dilemas pessoais têm resposta no estilo pessoal.
Talvez estilo pessoal seja um termo que envelheceu mal e não dê conta mais da nossa relação com a roupa, mas esse tema pode ficar para um outro momento.
O que me parece é que talvez a questão seja tão complexa e, ao mesmo tempo, tão “escondida” que as pessoas não estão procurando soluções nas IAs da mesma maneira que já estão pedindo dietas e rotina de exercícios físicos.
Mas isso também não significa que nós, personal stylists, podemos respirar aliviados. Primeiro que IA não se limita a esse modelo de uso mais ativo e o grande impacto, me parece, virá mais das IAs que estarão por trás da nossa forma de consumo (como as soluções de busca e provadores virtuais que os e-commerces já estão adotando) e, segundo, se as pessoas não estão nem pensando ativamente sobre isso, é aí que deveríamos nos preocupar.
Uma coisa eu tomo como certa: a consultora de estilo do passado não terá lugar no futuro, e não será por conta da tecnologia, mas, sim, porque perdeu a conexão com como as pessoas pensam seu vestir.
Por outro lado, as pessoas continuarão a ter dilemas do vestir e, cabe a nós profissionais, sabermos acompanhar. Eu acredito que a profissão perder relevância não será para a IA, mas para o próprio pensamento estagnado.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.