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A bussola de sentido · Aug 17, 2026

Eu não sei ter pressa

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Thais Nascimento · A bussola de sentido

Eu não sei ter pressa.
Quando sento para conversar com alguém eu quero saber o que a move, o que desperta essa pessoa e como seu corpo se move quando sua música preferida ressoa. Isso leva tempo, convívio, manias percebidas e até a avaliação de compatibilidade e não dá para fazer isso em cinemas, bares ou boates.
Hoje todos estão com pressa.
Em meio a um passeio, em vez de aproveitá-lo sendo presença, no próximo você já pensa. Quando lê um livro, o que protagoniza é a quantidade de páginas que se leu, passaram-se tantas, que de tanto correr, um acontecimento importante se perdeu. Aproveitar o momento, no lugar de planejar o próximo, já não é mais o propósito. Já que muitos se desacostumaram a viver pouco no ócio.

Eu não sei ter pressa.
Quando eu estou em um lugar, principalmente onde tem natureza, me distraio contemplando sua beleza. Me dou muito bem sozinha, mas também gosto de estar acompanhada, esqueço meu celular, acampo em algum lugar e aproveito a vida pacata. Observo as famílias levando seus filhos na bike, as crianças nem alcançam os pedais. Também tem aquele sorriso tão bonito que acompanha a paixão de certos casais. Mas o que mais gosto está adiante, o movimento que as árvores fazem quando o vento bate nelas triunfante.

Hoje todos estão com pressa.
“Eu vou indo lá”, alguém diz sem antes perguntar como o outro realmente está. O tempo que devia ser controlado por você, para os apressados ocorre o contrário. Olhar no relógio o tempo inteiro já faz parte do itinerário. Ir embora quando o filme acaba deixa de lado uma boa prosa, uma comida, uma bebida e quem sabe até ouvir um pouco mais de bossa nova.

Eu não sei ter pressa.
Ouço com atenção, não só palavras, mas tudo que envolve a ação. Posso até me interessar. Mas se alguém quiser ficar. Só será possível se a coerência me der segurança para descansar. Ando devagar, porque o passo apressado impede qualquer um de enxergar, aquela verdade gostosa de descobrir que só o tempo é capaz de mostrar.

Hoje todos estão com pressa.
Contando os minutos para algo acabar. Pensando no final de semana, o que irá ser feito e por onde começar, e o problema mora que ainda é segunda-feira e ela acabou de iniciar. Hoje todos andam correndo, não pedindo desculpas pelo esbarrão, muito menos agradecendo por alguém ter apanhado algo seu que caiu no chão.

Eu não sei ter pressa.
Talvez por isso não apareceu ninguém que permaneça. Meu ritmo é lento, apesar das demandas que surgem em minha cabeça. A calma acompanha meus passos, para mim não é preciso viver em correria, se eu inventar de ser como quem tem pressa, isso me trará profunda agonia. Vencer o mundo nunca foi minha pretensão, o que temo perder de vista é o que muitos deixam passar, no momento em que a pressa rouba a atenção.

Pois é, eu não sei ter pressa.
E nem quero aprender a ter. Alguns momentos vão embora por perder o sabor que só a presença pode oferecer. Só que essa presença só pode ser vivida se a clareza der seu parecer. Então, não viva de qualquer maneira, viva sendo transparente com o que, ao mundo, deseja oferecer.

Read the original on abussoladesentido.substack.com

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