A ironia que é você ser normalmente uma mulher desenrolada, que consome de Nietzsche a Manoel Gomes, que se vira, que é rápida nas respostas com todo mundo e que trava completamente quando gosta de alguém. Trava, gagueja, se perde.
Eu sou assim quando estou inspirada: articulada, eloquente, malabarista de metáforas, bem-humorada e certeira, mas só na presença de alguém que eu não me importo muito.
Ou seja, muito mais admirável com quem eu mesma não admiro. Porque a opinião que importa é a que intimida a gente.
“Mas você tem resposta pra tudo.”
Quase tudo.
Pra ele, não.
Ou pior, até tenho: uma resposta besta, frágil, que faz com que eu me arrependa no exato segundo em que ela escapa da minha boca. Porque ela escapou, não como um presidiário que finalmente escapa da cela depois de anos de planejamento; escapou como um cachorro que viu um portão e saiu rumo a nada, como as lágrimas escapam num buffet por quilo porque a lasanha acabou e você está de TPM.
O medo de gostar tanto de alguém assim é terrível. Quanto mais forte e independente você é, maior o medo. O medo de arriscar tudo o que você conquistou: o seu orgulho, a sua liberdade.
O medo de não ser vista.
Gostar é isso: tem que ser ele.
Ninguém mais tem graça, beleza ou prende a sua atenção.
Eu quis tanto gostar de alguém e, quando comecei a gostar, fugi. Agora que decidi viver isso e parar de fugir (“decidi”, entendam como a minha terapeuta gritando VOCÊ PRECISA VIVER ESSA HISTÓRIA, no melhor estilo Márcia Sensitiva de gritar), estou entendendo que não é como imaginei: é muito melhor.
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