Antes de toda literatura universal ser escrita e impressa, ela era canto. Os seis exercícios anteriores tinham por objetivo ensinar o estudante a olhar. Ver uma coisa, distingui-la de outra, perceber-lhe as características, compará-la, descrevê-la e, por fim, descobrir que o mundo é muito mais vasto do que os nomes que usamos para apontá-lo. No sentido mais literal possível, que é, paradoxalmente, o da metáfora. Agora convém avançar um passo. Uma vez que o estudante tenha aprendido a enxergar, é hora de aprender a ouvir.
A maior parte dos iniciantes imagina que a poesia seja uma espécie de literatura abreviada: uma prosa menor, quebrada em linhas. Não é. Se fosse, bastaria escrever qualquer parágrafo e apertar a tecla Enter a intervalos regulares. Pensando bem, não é o que a maioria das pessoas fazem, quando querem ser poetas por um dia? O que distingue a poesia de quase todas as outras formas de escrita é que ela não se dirige apenas ao entendimento; dirige-se também ao ouvido. Mesmo quando lido em silêncio, um poema produz sons imaginários. As palavras possuem peso, velocidade, aspereza, suavidade, duração. Algumas parecem pedras rolando escada abaixo. Outras lembram água escorrendo por uma superfície lisa. Algumas explodem. Outras se dissolvem.
Estes seis exercícios existem para chamar a atenção para esse fenômeno. Não se trata ainda de estudar métrica de maneira rigorosa, nem de decorar nomes gregos para os pés métricos, nem de contar sílabas como um funcionário da alfândega. Me desculpem, mas o normie de internet, pronto a se chamar de poeta, e geralmente de tradição conservadora, adora a metrificação. É uma substituição: métrica é técnica acessível que se pode ver, e exige, ademais, apenas contar até dez. É mais fácil que alfabetizar uma criança do zero. Daí que seja amada, pois passa a impressão de que a pessoa que a execute, tenha autoridade.
Essa segunda parte trata de tentar desenvolver, no aluno, as potências que trabalham o corpo das palavras, sabendo que este corpo produz música.

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