Por: MF_vão
No Brasil nada é maior e mais relevante para a cultura popular nas grandes cidades do que o carnaval. Além de ser o marco informal do começo do ano brasileiro, ele movimenta milhões de pessoas, bilhões de reais e uma imagem positiva do Brasil que circula pelo mundo afora.
Como um exemplo, somente em São Paulo, em 2025, o carnaval representou 16,5 mi de foliões, 3,4 bi de reais movimentados. Números parecidos com os que vêm sendo divulgados para 2026, com 16,5 mi de foliões e 7 bi de reais movimentados pela festa.
O atual modelo de carnaval de rua na cidade de São Paulo, ao menos no que se refere à relação entre prefeitura e blocos, segue, em alguma medida, o modelo implementado por Fernando Haddad. Os blocos participam de um edital para receber uma verba e utilizarem “legalmente” a estrutura da cidade, e a prefeitura usa esse cadastro para planejar o carnaval.
Essa forma é interessante para a cultura da cidade, pois oferece caminhos para formalização dos blocos e acesso a dinheiro público. Mas ela também cria uma divisão entre os blocos que têm permissão legal para existirem e aqueles tidos como “clandestinos”. Na proposta original, que estava longe de ser perfeita, haveria uma contínua ação institucional da prefeitura de São Paulo para que esses blocos fossem progressivamente integrados ao carnaval de rua oficial, mas essa ideia durou pouco.
Desde a prefeitura de Haddad tivemos a grande sequência conservadora de Dória/Covas/Nunes, transformando o que era uma política de Estado e diálogo com as organizações ligadas ao carnaval de rua em uma oportunidade de corte de gastos e uma questão de segurança pública.
A data do carnaval foi se transformando em um momento de propaganda política da prefeitura e uma oportunidade de assegurar parcerias com as grandes marcas ligadas à festa (bebidas, turismo e, mais recentemente, as bets). Assim como a própria formalização do carnaval, também ampliou espaço para blocos, desfiles e camarotes completamente apartados da ideia de festa popular.
Isso fez com que o carnaval chegasse ao ano de 2026 com uma série de problemas e questões a serem resolvidas.
1º - Ricardo Nunes quer competir com o Rio de Janeiro com os megaeventos. Isso aparece tanto em festivais como o The Town, mas também com os megablocos de carnaval, como foi o desastre do Calvin Harris, que deixou dezenas de pessoas feridas em um caos de organização.
2º - A Prefeitura de São Paulo cortou R$ 12 milhões do orçamento público para o Carnaval de rua 2026, zerando aportes diretos aos blocos legalizados e dependendo 100% do patrocínio da Ambev/Skol (R$ 29-30 milhões) para estrutura básica. O que permitiu à Ambev recuperar seus custos via sub-patrocínios de bets e marcas, expondo sua marca na maior festa popular sem custo líquido, enquanto a gestão Nunes priorizou parcerias privadas em vez de investir recursos dos cidadãos na tradição cultural.
3º - A violência policial vem sendo usada como uma ferramenta de controle da festa popular. Parece que grandes aglomerações não são motivo para organização, planejamento e diálogo com a população, mas sim um motivo para colocar a GCM para bater em vendedor ambulante e jogar bomba na cabeça do folião.
Todas essas questões criam uma incógnita sobre o futuro do carnaval de rua na cidade. Vale tudo para termos os maiores números, os maiores eventos e os patrocínios mais instagramáveis?
Os problemas e contradições que o formato dos editais e blocos legalizados vêm encontrando atingem o limite entre o respeito à tradição e à democracia do carnaval e sua capacidade de ser propaganda para vender cerveja e casas de aposta. Resta saber se isso será o suficiente para afetar, de alguma forma, a popularidade de Ricardo Nunes, pois nestes já 10 anos de continuidade Dória/Covas/Nunes não há diálogo que o poder público reconheça que não seja o lobby e outros caminhos do dinheiro.
Fontes
https://piaui.folha.uol.com.br/a-ambevizacao-do-carnaval-paulistano/
https://www.metropoles.com/colunas/demetrio-vecchioli/nunes-blocos-informais
https://piaui.folha.uol.com.br/a-ambevizacao-do-carnaval-paulistano/
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